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“As coisas especiais estão para quem vive a vida e não para quem fica atrás do celular”

Em conversa intimista com TOP, o ex-Rappa Marcelo Falcão fala sobre o que o levou a "Viver (Mais leve que o ar)" – seu primeiro álbum solo (Warner Music). Veja o bate-papo na íntegra (e o depoimento da cantora Iza)

POR Melissa Lenz 7 MIN

19 fev

7 Min

“As coisas especiais estão para quem vive a vida e não para quem fica atrás do celular”

POR Melissa Lenz

	

˜Hoje eu acordei / Acordei / Acordei / Oi oi / Hoje eu acordei, e decidi esquecer broncas e mágoas de outrora / Abrir o coração e todas as portas”. São com esses inspiradores versos de Hoje Eu Decidi que o ex-vocalista do grupo O Rappa, Marcelo Falcão, 45, abre seu primeiro álbum solo, Viver (Mais leve que o ar) – que pelo visto será o primeiro de uma trilogia. Produzido por ele e Felipe Rodarte – a quem o cantor confiou a missão de fazer uma bela triagem em cima de seus mais de 600 arquivos – o disco de 13 faixas já está disponível nas plataformas digitais desde a última sexta (15). O lançamento oficial foi comemorado na sede do Twitter, em São Paulo, com um pocket show exclusivo de Falcão e sua (incrível) banda, promovido pela gravadora Warner Music – e também transmitido ao vivo pelo instagram da @topmagazine.

	

Hoje Eu Decidi porque…

“Cara, sinto que a gente tem perdido amigos, histórias e um montão de coisas que as pessoas nunca mais terão oportunidade de ver. E às vezes perdemos porque esquecemos de viver e de ver o real sentido de estarmos aqui”, Marcelo diz a TOP (vídeo na íntegra no final desta matéria). “E com essa onda de ter perdido pessoas, familiares e amigos nos últimos anos, eu não conseguia imaginar nada que não fosse ver ao contrário através do que eu escrevesse ou cantasse. Queria que as pessoas sentissem que está realmente na hora de abrir o coração e deixar essas besteiras e mágoas pra fora; deixar a energia parada de lado”, ele divide.

Good vibes é o que a gente já sente só de estar perto dele. “Entre o meu mundo antes (com O Rappa) e o de agora, sou um cara que é um pólo de energia para quem eu conheço. Me sinto honrado de a galera ver isso em mim e mais feliz ainda de poder dar a elas esperança”. Vira e mexe Falcão revisita o bairro onde foi criado (Engenho Novo), no Rio, de saiu há 25 anos para conquistar o coração de milhões. “Vou sempre lá e está pior do que quando saí pra tocar”, lamenta. “Acho que estamos perdendo o real sentido de viver, brigando entre si, perdendo a oportunidade de, independente de qual lado você queira para o Brasil, tem que querer um que seja o melhor para o país, e não aquele que escolheram pra gente”, pondera.

Sobre seu retorno solo após a turnê de despedida da banda: “Vi amigos se perdendo, pessoas morrendo, e ficando inimigas, deixando de viver… E eu tinha necessidade de, como um dia ter sido a voz do Rappa, continuar a incentivá-las a viverem mais suas vidas; de (fazê-las) acreditar que é possível fazer as coisas acontecerem ao redor mesmo que através de mudanças internas. E que o meu jeito de falar continue sendo sempre em alguns momentos sobre amor, plural, mas também de dificuldade e diversidade. E que tudo é possível desde que venha com o coração puro e bom, que aí dá pra ter continuidade”, conta.

Perdas e Ganhos

“Deus sabe o que faz”, afirma o católico de batismo interessado em todas as religiões. “Um dia perdi Tom Capone (1966-2004) e aí encontro de novo Felipe Rodarte e Constança (Scofield) – que comandam o histórico estúdio fundado por Capone, Toca do Bandido – e passei dez meses lá. Aí tirou o grande poeta Wally Salomão (1943-2003) e botou o Lula Queiroga (que assina junto a canção Mais Leve que o Ar e participa da faixa 6, Viver)

Para Falcão, o que manteve sua essência foi a criação dada pelos pais. “Sou filho de um negro e uma branca. No certificado de reservista estou como pardo! Nunca faltou ideia lá em casa por conta disso” (risos). “Tive que aprender a lidar com adversidades desde cedo. E agradeço a elas por ser o cara que sou.” Errar, todo mundo vai, mas hoje dá para vacilar menos. “Busco ouvir mais os amigos e as pessoas que me rodeiam. Essa é uma grande maneira de ver a vida”. E quem já o conhecia de perto talvez o reconheça em suas próprias palavras: “só cresceu o tamanho da dread e eu envelheci, mas o coração continua purão… O que muda é só o tempo passando. Estou sempre aberto a aprender mais”. Ele adora ler cordeis. “As coisas simples continuam me emocionando. E esse disco é um presente meu à vida e aos fãs. Vocês não vão ficar sem minha pessoa, ainda verão minhas dreads balançando muito no palco”.

 

Bloco na rua (com dreads e gente nova)

“Quero estar numa turnê perto dos novinhos que sempre bateram na minha porta nesses últimos anos. Tem uma galera bem interessante mandando muito bem. Bato palmas para eles e para estar junto, é um pulo! Os shows vão dizer isso”, adianta. Ele elogia bandas como Oriente, Reação, Rapadura e a grande revelação Iza. “Vi o tamanho da força que foi fazer um negócio com ela por uma série de coisas: a parceria inusitada – em Pesadão, dueto que virou hit com mais de 124 milhões de streaming em áudio e vídeo – com uma novata expert em covers no YouTube, que já tinha lançado seu som e me deixou à vontade para mexer naquela música. Vi ali uma negra que não via há muito tempo, imponente, cantando metendo o pé no peito mesmo… E quando ela me contou ‘também sou do subúrbio, de Olaria’, falei ´o que é isso?!’. 

Em depoimento a TOP via WhatsApp, a cantora Iza se diz uma grande admiradora e reconhece a dimensão de Falcão para o seu sucesso fenomenal – só até o ano passado, a canção da dupla ganhou disco de platina triplo e teve mais de 124 milhões de streaming em áudio e vídeo. “Sou bastante grata a essa parceria e ao Falcão, que são muito importantes na minha história. Fico bem feliz por ter começado dessa forma, com um cara tão incrível ao meu lado. Tô achando super lindo que a música (Pesadão)  ainda está acontecendo e, para mim é uma honra poder ter a participação dele na minha história. Nós somos grandes amigos e mesmo assim vou ser pra sempre uma grande admiradora.” 

(Fotos: Silvia dos Santos)

Você vai ter que continuar

Viver (mais leve que o ar) é uma história que eu queria contar, por isso botei as faixas nessa ordem, para que tudo se encaixasse. É como se o cara fosse sentindo aos poucos o que está acontecendo”. Ele cita como peculiar a faixa 13, Senhor Fazei de Mim (Instrumento de Sua Paz) (Oração de São Francisco). “Eu já tinha um respeito muito grande pela Oração de São Francisco, e considerava Jorge Ben Jor e Jorge Aragão dois ícones que nas suas épocas fizeram algo que queriam de coração e no meio disso botaram um sentimento que acharam necessário. Jorge Ben fez Oração a São Jorge e Jorge Aragão, no início do anos 90, fez Nossa Senhora no cavaquinho. E eu achava que meu disco terminaria no ‘me entende’ com o cara ouvindo a Oração de São Francisco. Se você parar um pouquinho vai entender que o que eu queria no disco todo era fazer sair da mesmice, se levantar, ir pra frente. E se ouvir dançando, ainda será levado a um universo que é muito particular meu, mas que tô dividindo com todo mundo, que é fazer reverência à vida”, diz mais sereno do que nunca. “Com a morte não sei lidar muito bem ainda. Estou aprendendo.” Quando perdeu o avô, ouviu de sua mãe: “Você vai ter que continuar, vai ter show hoje. Vai ter que ir lá fazer os outros felizes’. Mas eu tô triste, falei. ‘Descola um jeito dentro de você’”. Ele subiu no palco e deu seu recado para 6 mil pessoas. “Tenho aprendido todos os dias… O mais justo é fazer com que elas tenham sentido e vontade de viver.”


Para quem vive a vida

Hoje Eu Decidi surge outra vez em nossa conversa: “Quando você vir esse clipe – até aquele momento guardado a sete chaves pela Warner -, vai entender”.  O filme dirigido por Mess Santos traria a linda Isis Valverde – “ela é fã e pediu para estar junto” – no papel de uma menina fútil. “Mas no meio de sua futilidade ela acorda e nota que se ficar naquele telefone, vivendo aquela historinha sem constância, vai ficar parada no tempo. As coisas especiais estão para quem vive a vida, e não para quem fica atrás do celular.”

Por falar em filme, ele revela um plano quase secreto. “Conversei ontem com meu empresário e tenho vontade de fazer uma história que ninguém sabia que havia feito”. Durante o último ano de gravação do disco, um câmera filmou todo seu trabalho no estúdio. “A ideia é produzir séries para uma Fox, Sony ou Netflix. O cara vai ver de tudo: o acreditar, desacreditar, os músicos chegando, e até a aparição de um gato que para mim representava o Tom. Eu o alimentei desde o primeiro dia. Continua lá até hoje. Tem até um momento no documentário em que ele aparece e tenta pular na fechadura. Virou nosso amuleto.”


Mantra para “Viver (mais leve que o ar)”

“Posso escolher quatro faixas? Viver, Quando Você Olhar pra Mim, Mais Leve que o Ar e Hoje Eu Decidi” – filme que tive a honra de ser a primeira a ver, junto com ele no sofá (duas vezes!), após esta entrevista. Claro que deixei o celular pra lá… Pena!?

Confira abaixo o vídeo deste papo na íntegra.

Clique para ouvir o álbum Viver (Mais leve que o ar), Warner Music: https://lnk.to/MaisLeveQueOAr

Agenda da Turnê de Marcelo Falcão: https://www.instagram.com/p/Btthgt-HlZH/

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