TOP Magazine

Mãe Coragem

Nova montagem de Daniela Thomas, Mãe Coragem relembra a fragilidade humana

POR Mônica Arouca, com exclusividade para a TOP Magazine 3 MIN

24 jun

3 Min

Mãe Coragem

POR Mônica Arouca, com exclusividade para a TOP Magazine

	

Quem conhece a obra e o estilo provocador e indignado do dramaturgo e escritor alemão Bertolt Brecht (1898-1956) sobre a complexidade da natureza humana e o flerte dela com as injustiças sociais e com os totalitarismos, vai encontrar na recente montagem Mãe Coragem, o que o autor gostaria de ver numa leitura do seu texto original Mãe Coragem e seus filhos (1939): uma plateia que, em torno de um palco, é chamada ao vórtice da história porque é espectadora e testemunha do que assiste.
A diretora Daniela Thomas transformou 240 metros quadrados, em uma arena cujo piso de terra irregular remete a um lugar arrasado, por onde 12 atores, acompanhados por seis músicos que, ao vivo, fazem a trilha sonora, contam a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648). A batalha, que deixou oito milhões de mortos, não só apôs católicos e protestantes na Europa Central, sobretudo na Alemanha, como também arrastou para a selvageria – como a maioria das guerras – nações que nada tinham a ver, a princípio, com a disputa original.
É nesse contexto que a atriz e idealizadora do projeto Bete Coelho, encarna Mãe Coragem e conduz a narrativa de Anna Fierling, negociante, que carrega uma carroça cheia de quinquilharias e as vende para as tropas famintas em troca da sobrevivência de si e de seus três filhos, todos que perde para a guerra.  Aí situa-se o que Brecht concebia – o teatro como transformação de consciências – e que, numa parceria de 33 anos de trabalho juntas, Daniela e Bete bem traduzem: a dialética da personagem principal. Como unir dois papéis sociais superpostos pela contingência da guerra? O de negociante que lucra com ela, ou o de mãe, cuja pretensão é a de ver seus filhos como não combatentes, de seguir até onde pode com eles? Ou as circunstâncias unem as oposições morais, sem que se possa julgá-la pura e simplesmente?
Brecht foi o primeiro a dirigir a peça em 1941, na Suíça, e buscava a antipatia do público para com Anna, o que não se deu na época, em plena ascensão nazista, regime do qual o escritor foi alvo. Na montagem de Daniela, há momentos em que os dilemas humanos, propostos pelo autor alemão, assumem ápices: para salvar a si, os seus e sua fonte de renda, a carroça, Mãe Coragem deve negar um dos filhos?
O impasse de Anna não é dos mais fáceis, como explica Marcos Renaux, tradutor para a peça: “Coragem aqui não entendida como um traço positivo, mas como a descrição de uma ambição dessa vivandeira. Seu amor materno serve como justificativa para seu negócio. Paradoxalmente, esse mesmo negócio contribui decisivamente para a morte de todos eles”.
Mãe Coragem propõe a reflexão sobre a frágil, contraditória e vulnerável condição humana, mas, sobretudo, aponta para o inferno das guerras, das corrupções morais e dos lucros que elas engendram.

Serviço:

Mãe Coragem, de Bertolt Brecht. Direção: Daniela Thomas. Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, Água Branca. De 11 de junho a 21 de julho de 2019. Terça a sábado, às 20h30,  e, aos domingos, às 18h30. Ingressos: R$ 40,00 (inteira); R$ 20,00 (aposentados, pessoa com mais de 60 anos, pessoa com deficiência, estudante e servidor de escola pública com comprovante) e R$ 12,00 (credencial plena do Sesc).  Classificação: 12 anos. Duração: 150 minutos.

Fotos: Lenise Pinheiro

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO