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Luz, câmera… dentes!

APÓS BEM-SUCEDIDA CARREIRA CLICANDO ESTRELAS DE HOLLYWOOD, O FOTÓGRAFO CALIFORNIANO MICHAEL MULLER FOCA SUA LENTES NOS MAJESTOSOS REIS DOS MARES

POR Kike Martins da Costa 5 MIN

19 maio

5 Min

Luz, câmera… dentes!

POR Kike Martins da Costa

	

 

 

Quando tinha apenas 11 anos e morava na Arábia Saudita, para onde seu pai havia sido deslocado para trabalhar na construção do gigantesco polo petroquímico de Jubail, o pequeno Michael Muller ganhou sua primeira câmera fotográfica à prova d’água – uma Minolta Weathermatic. Malandrinho, saiu mostrando para os coleguinhas de escola a incrível foto que fez de um tubarão. Todo mundo ficou impressionadíssimo – ainda mais que todos costumavam mergulhar ali pertinho, nas águas do Golfo Pérsico. O que Michael não contou para ninguém é que aquela imagem era apenas uma reprodução que ele havia feito com sua camerazinha de uma foto publicada em uma página inteira da revista National Geographic. A lição que ele tirou desse episódio é que uma simples foto pode causar grande impacto nas pessoas.

Anos depois, de volta à sua terra natal, a Califórnia, ele começou a trabalhar profissionalmente como fotógrafo e fez fama clicando popstars do cinema e da música. Amigo de estrelas como Leonardo DiCaprio, Drew Barrymore e Stephen Dorff, ele fez os pôsteres de vários blockbusters – como Capitão AméricaResident EvilHomem de Ferro, Wolverine e Doutor Estranho – e capas de discos de artistas como Rihanna, Morrissey, Pharrell Williams e Beck, além de bandas como Red Hot Chili Peppers e Radiohead.

Há oito anos, fotografando o nadador Michael Phelps para uma campanha da Speedo, começou a se interessar pela produção de imagens subaquáticas. Juntando isso com seu fascínio por tubarões – que cultivava desde os tempos em que viveu na Arábia –, deu início a uma série de expedições pelos quatro cantos do planeta para clicar esses reis dos mares, criaturas impressionantes que ele diz serem as maiores injustiçadas da natureza. “Tubarões sempre inspiraram medo nos humanos, sempre foram erroneamente demonizados, mas grande parte desse pavor vem de filmes de ficção como o clássico de Spielberg. Meu objetivo é mudar essa percepção. Você, eu e todos nós somos programados para considerarmos os tubarões como grandes inimigos da raça humana. Eu também pensava assim, até mergulhar entre eles e mudar meu jeito de ver as coisas. Percebi o quanto eles são inteligentes e quanto eles se assustam com a nossa presença. A cada ano, acontecem apenas cinco incidentes fatais envolvendo tubarões e humanos no mundo todo! Nós definitivamente não fazemos parte do cardápio deles”, explica.eu primeiro contato de perto com esses grandes animais foi na ilha de Guadalupe, na costa ocidental do México, onde as pessoas são submersas dentro de gaiolas para observar tubarões-brancos devorando carcaças de peixes e pedaços de carne atirados ao mar. “Assim, provocados e estimulados pelo ‘cheiro’ de sangue, os tubarões se transformam em verdadeiras feras, artificialmente enlouquecidas. Depois dessa experiência, que eu sinceramente achei algo meio bizarro, decidi que iria tentar encontrar esses gigantes do mar em outras situações, em seu habitat natural, sem esse circo todo montado. O encanto que eu tenho desde a infância pelos tubarões só aumentou, e essas viagens se tornaram cada vez mais frequentes. Hoje, fazemos em média uma expedição fotográfica dessas a cada dois meses”, conta Muller.

Não são operações nada simples: cada viagem custa em média de US$ 80 mil a US$ 100 mil. Muller viaja sempre acompanhado de uma equipe de cinco a sete assistentes de fotografia, além de técnicos de mergulho e biólogos como Philippe Custeau Jr., neto do famoso documentarista francês. “Quero registrar a vida selvagem com a melhor tecnologia disponível, quero produzir imagens que ninguém nunca viu antes. O ideal seria trazer os tubarões para o meu estúdio, mas como isso não é possível sem termos que matá-los, eu simplesmente decidi levar o nosso estúdio aos locais onde eles vivem. Para isso, criamos e patenteamos alguns equipamentos de iluminação, usamos alguns holofotes desenvolvidos pela Nasa e câmeras da melhor qualidade, como a minha Nikon D800 e a minha dinamarquesa Phase One de última geração”, conta o fotógrafo.

O equipamento de mergulho não é tão especial, porque os tubarões em geral habitam águas pouco profundas, entre 10 e 20 metros abaixo da superfície. “Eu uso sempre um wet suit da Matuse, que é feito de Geoprene, uma espécie de Neoprene que tem maior flexibilidade, é mais confortável, mais impermeável e retém o calor do corpo com mais eficiência. As roupas são desenhadas e confeccionadas com a ajuda de ortopedistas e permitem uma respiração mais fácil e com menos esforço. Além disso, uso o relógio IWC Acquatimer edição especial Sharks, que resiste até 300 metros de profundidade e cuja campanha eu mesmo cliquei para a marca suíça. O mais importante mesmo é estarmos à vontade e absolutamente ligados no comportamento dos tubarões. Nós só trabalhamos sem medo porque já temos centenas de horas de experiência nesse convívio, e ainda assim não podemos nunca deixar de ter em mente que estamos lidando com animais selvagens. Muitas situações, ainda assim, são imprevisíveis”, comenta Muller, que recorda já ter vivido momentos de alta tensão em baixo d’água.

Cada espécie de tubarão tem sua personalidade e seu comportamento característico. Quando um grande tubarão-branco ou um tubarão-martelo se aproxima muito, com aquele jeitão lento e curioso, basta dar um tapa em seu “nariz” ou bater com a câmera nele para que o bichão recue e se afaste. Outros tubarões são mais assustadores – e não muito mais do que isso – porque atuam em bandos, como hienas na savana. “Certa vez, estava mergulhando em Galápagos e vi uns seis tubarões-limão se aproximando. Comecei a fotografá-los e, quando me dei conta, estava rodeado por uns 40 indivíduos, nadando ao meu redor com toda velocidade. Eles são pequenos e seria muito inusual se eles me atacassem naquela situação, mas era impossível acompanhá-los com o olhar, eles vinham de todas as direções. Foi assustador. Resolvi voltar para o barco e me senti como o Neo [Keanu Reeves] desviando das balas naquela célebre cena do filme Matrix, ri Muller.

Conhecendo os vários tipos de tubarões, o fotógrafo tem os seus prediletos. “Todos são bonitos, cada um por um motivo diferente. Mas eu prefiro os brancos e os tubarões-tigre, porque são mais solitários e é mais fácil interagir com eles. Quando estão em bando, é difícil estabelecer qualquer forma de relação”, opina.

Depois de rodar o mundo seguindo essas fascinantes criaturas, Muller também já sabe quais são os melhores points para mergulho. “Galápagos é o lugar mais ‘cool’ e é o meu lugar predileto. É uma região muito bem preservada, e lá é possível nadar em meio a tartarugas, arraias, golfinhos, baleias e pinguins – parece um museu marinho a céu aberto. Já as Ilhas Fiji são maravilhosas por causa da variedade de espécies de tubarões: já fotografei sete tipos de tubarões diferentes por lá. As Bahamas são um lugar fantástico por causa da transparência e da temperatura agradável das águas. E não posso deixar de citar a África do Sul, principalmente sua costa Oriental, no Oceano Índico, que é muito selvagem e com uma fauna marinha muito rica. É uma área onde os mergulhos são muito desafiadores por causa das correntezas e da temperatura da água, mas vale a pena”, avisa.

O resultado dessas expedições todas pode ser visto no livro Sharks: Face-to-Face with the Ocean’s Endangered Predator, lançado pela editora alemã Taschen. O livro – edição compacta à venda por US$ 69,99 no site www.amazon.com – traz dezenas de imagens captadas de noite e de dia, em diferentes locações e de várias espécies de tubarões – muitas delas ameaçadas de extinção. A cada ano, segundo as estatísticas compiladas pelo biólogo marinho sul-africano Alison Kock, 100 milhões de tubarões são mortos no mundo todo por humanos interessados em suas barbatanas, seu fígado rico em óleos com propriedades medicinais, sua carne e sua brânquias, gerando mais de US$ 600 milhões em vendas. “A cada vez que eu volto a um lugar onde já estive, percebo que as populações de tubarões estão cada vez menores. Nos últimos 25 anos, eu ajudei a vender tênis da Nike, maiôs da Speedo, carros da Toyota e garrafas de champanhe da Moët & Chandon e já ajudei a promover blockbusters que levaram milhões de espectadores aos cinemas, gerando bilhões de dólares. Talvez agora eu possa ‘vender’ esses animais de uma maneira que as pessoas ainda não conheçam e possa alertar o mundo sobre o quem vem sendo feito com eles. Quero que as pessoas reflitam sobre isso antes de comer um sushi de tubarão ou tomar uma sopa de barbatana. Sinto que as minhas filhas não poderão ver algumas belezas da natureza que eu tive a oportunidade de ver, e isso me entristece. Vou fazer o que estiver ao meu alcance para conter essa destruição. Essa é a minha missão neste momento”, finaliza.

 

Fotos: Michael Muller/Taschen

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