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02 set

Léo Santana

AMIGO, SINCERO E PROFISSIONAL. ESSAS SÃO AS TRÊS PALAVRAS QUE LÉO SANTANA USA PARA DEFINIR A SI MESMO. PARA NÓS, PORÉM, BASTA UMA: GIGANTE. NO PALCO, NA MÚSICA, NA HUMILDADE E NO ENORME CORAÇÃO, ELE É GRANDE, ÚNICO E IMENSO. COM VOCÊS, O QUERIDO “GG”

POR Melissa Lenz 7 MIN

02 set

7 Min

Léo Santana

POR Melissa Lenz

	

Venho do bairro Boa Vista do Lobato, subúrbio ferroviário de Salvador, na Bahia. Tive o prazer de nascer e me criar lá. Hoje moro em um lugar muito bacana, mas o fundo de minha casa é para uma comunidade similar a onde nasci para que jamais esqueça de minhas origens. Todos os dias olho e penso: “Caraca, eu saí da favela, mas ela nunca saiu de mim”. E tenho um orgulho absurdo disso. A maioria dos meus amigos é da periferia. Toda vez que dá, saímos juntos para colocar a conversa em dia. Também tenho outros, é claro, que ganho com meu trabalho, minha carreira. Mas os de lá são aqueles que estão verdadeiramente sempre comigo.

O começo
Léo Santana começou aos 12 anos de idade, cortando cabelo e vendendo coquetéis. Não era exatamente um barman, mas um cara que ajudava o dono da quitanda a vender Capeta, drinque popular do Nordeste. Eu trabalhava para ter final de semana, ajudar meus pais em casa junto das minhas irmãs e criar independência. Nunca fui de correr atrás dos outros, sempre batalhei para ter o meu. Coloquei na minha cabeça que queria ser artista: cantor! E hoje vivo todo esse sonho. É muito mais do que imaginei quando criança e adolescente. Me sinto realizado pessoalmente e profissionalmente, pela felicidade de toda a minha família e meus amigos. E que eu possa sempre ajudar esse bando em que um depende do outro, e todos de um líder, que no caso sou eu. São umas 30 pessoas viajando sob minha dependência, mais de 20 famílias na minha equipe, e por eu ser o porta-voz, o cantor e tudo levar meu nome, tenho que ter essa responsabilidade, que é muito grande.

Quem é o Leandro Silva de Santana
Sou muito divertido e extrovertido, mas sério quando preciso. Nunca tive um momento de deslumbre ou de destratar alguém. Esses dias, a Maiara (da dupla Maiara e Maraísa) me perguntou no camarim se eu já havia feito coaching. Respondi que não. “Mas como é que você consegue ter uma cabeça tão equilibrada? Vejo que é focado no trabalho, tudo é tão óbvio para você… E todo mundo te adora!” Disse que não sei se é Deus ou característica do meu signo (Touro), mas meu pai também é assim. Se eu estiver passando por alguma dificuldade, sou de resolver comigo mesmo, fico caladinho ali, procuro não levar isso para o próximo porque pode acabar afetando, mesmo que seja no bom sentido. Sou muito na minha, tranquilo, zero problema, zero estresse. A não ser quando peço ou marco algo e não cumprem, mas acho que todo mundo é assim. Sou muito correto, e isso vem da minha família. Esse é o Leandro Silva de Santana que hoje vocês conhecem como o artista Léo Santana.

Andar na linha
As pessoas se enxergam em mim por eu ser um moleque de lugar periférico. Posso ser mais papo reto ou também o Léo. Elas se identificam comigo, com minha história, com tudo que tenho vivido. Tento andar na linha para manter o exemplo, e quando faço algo errado já peço desculpas de imediato. “Ah, não estou servindo de exemplo agora”, deixo explícito em minhas redes sociais. Mas do meu carinho por Salvador sou suspeito de falar. É uma relação de família mesmo. Dos lugares nobres aos mais humildes, aonde sou muito querido e respeitado. Graças aos meus fãs de Salvador me tornei o que sou hoje. Foi onde fiz meus primeiros shows, e de lá expandi para outros lugares do Nordeste, Norte, depois Sudeste, Sul… Só que foi lá que tudo começou, então sou eternamente grato. Mas é claro que hoje tenho fãs pelo Brasil inteiro e trato todos com igualdade.

Limite com os fãs
Sempre tem aquele que é mais ciumento, que acha que merece mais do que os outros. É necessário ter todo o cuidado ao falar, como tratar e não responder a cada pergunta que pode ser interpretada de forma distorcida, pois também existem os neuróticos e muito obcecados, que acham que fazem parte da vida do artista como um familiar. Para os que entendem que não devem invadir a minha privacidade, que se atêm ao lado profissional, posso olhar como grandes amigos. Às vezes, até brinco, porque entendo a emoção de estar com seu ídolo, de tirar uma foto com ele. Uma vez disse: “Eu tô bem, minha família também”, e eles: “Ah, me deixa só tirar uma foto…”; “Mas eu estava aqui ontem no mesmo aeroporto e você tirou uma foto comigo, a gente já tem uma intimidade, vamos bater um papo.” Mas pelo fato de sermos próximos, porque sim, é um assunto muito delicado, então tento sempre me comunicar de um modo espontâneo, alegre, extrovertido, porque se o fã pega ranço do artista, aí ferrou, vira contra total e acaba contaminando os outros.

Engulam seus preconceitos
Concordo que vivemos em um país muito preconceituoso, infelizmente, e de modo geral, se sofri, não percebi! Também não quero ver para não absorver esse sofrimento. É uma briga longa, uma luta difícil e bastante complicada. Mas nunca me senti um peixe fora d’água. Em qualquer ambiente que entro, é como se dissesse “rapaz, cheguei!”. Gostando ou não, vai ter que me aturar. Gosto de andar em lugares bacanas que outras pessoas negras podem interpretar como “ah, não vou lá porque tem gente preconceituosa”. Não penso assim. Se estou lá é ele que vai ter que me engolir! Não estou pedindo nada, pago com meu dinheiro, vou com meu carro, então se não gostou, que se retire. Sempre encaro dessa forma, e quando olho ao meu redor e percebo que negro só tem eu, penso que “sou o cara”. Falo para os meus irmãos na hora: “Não tem ninguém como eu aqui”. Famoso ou não, é muito difícil encontrar em certo lugares um homem com um porte físico bacana, de 2 metros e negro. Hoje eu me sinto, de fato, abençoado por ser um artista e poder levar isso para outros jovens. Sou realmente um vencedor.

Você viu a roupa do Léo?
Sempre acompanho o que andam consumindo. Acredito que o que vivo atualmente na música, esteticamente está de acordo com essas tendências. Cores fortes, neon, animal print estão em alta! Nos shows, gosto de me vestir de forma ousada, de um jeito que as pessoas só fariam se fosse num palco. Curto fazer assim porque lá em cima sou o centro das atenções, mas com a consciência de que receberei críticas e elogios. Posso usar determinada roupa e ser detonado depois, mas, na real, me lancei assim, com as pessoas perguntando “você viu a roupa que o Léo usou?”. Não sou do mundo da moda, mas eu gosto, pesquiso. Não estou usando aquilo ali por loucura e, agora, quem entende fala “você viu que Léo Santana usou? Caraca, o moleque não está sozinho, não! Está bem assessorado… você viu o relógio? Viu a peça? Aquele sapato?”. Eu cheguei de um modo diferenciado, que na Bahia —  tirando Ivete e Claudinha (Leitte), que são outro patamar — não tem. E com um gênero musical que é um pagode, mas com uma produção completamente diferente, e que acaba sendo generalizado como axé.

Da rejeição ao estrelato
Tenho conquistado cada vez mais espaço com um gênero que não é tão normal no Brasil: esse pagode vindo da Bahia, que vocês popularmente chamam de axé, só que é totalmente diferente para os baianos. Existe um bloqueio por não ter tanto espaço como o sertanejo e o funk, é muito difícil ouvir um pagode na balada, e acredito que não tenha tantos representantes como deveria. Há 20 anos, tinham muitos artistas do mesmo gênero no Brasil, mas hoje se fizermos um festival chamando os fortes na Bahia serão Léo Santana, Ivete (Sangalo), Claudinha (Leitte). As pessoas não procuram porque enxergam como uma coisa menor. Já vi gente com repertório muito bacana na boca do Brasil inteiro montando um festival, as pessoas pedindo a minha participação e o cara falar para o meu empresário que não me queria para não “sujar a linha de apresentações”, por julgar ser algo pequeno. E agora, vou te dizer que tem mais de quatro anos que essa mesma pessoa implora para me apresentar em seu evento. Independentemente de você gostar ou não, o respeito está em falta no Brasil. Eu faço shows pelo país inteiro e canto para um grande público que sabe todas as letras. Ouço o mesmo que a galera, não fico preso só no meu gênero. Já gravei funk com Mc Kevinho, forró com Wesley Safadão [seu novo DVD, gravado dia 15 de agosto no Credicard Hall, em São Paulo, terá partipação de Anitta, Atitude 67, Mariana Fagundes, Jhay Cortez, entre outros], ouço sertanejo, rap… Acho que é por isso que venho conquistando públicos diferentes. Agradeço a Deus todos os dias porque isso é uma bênção. Eu sei o que é meu som, é da favela, da minoria. Só de chegar aonde cheguei e conseguir representar uma massa, um povo que me vê como referência, como inspiração, é uma grande conquista.

Fama, dinheiro, mulheres e carreira solo
Eu era um moleque de 19/ 20 anos vivendo intensamente cada segundo, curtindo a vida sem responsabilidade alguma [na época com a banda Parangolé]. Passaram-se mais de dez anos desde o sucesso de Rebolation (2009), composição minha junto com Nenel. Nunca tinha feito música, só executava as que me presenteavam, e aí tive a oportunidade de vir com uma ideia que vi na internet. Na época, “rebolation” era apenas um passinho com os pés. Existiam milhares de tipos de grupos de rebolation, e achei uma boa sacada fazer um da Bahia. Aí vocês já sabem o que aconteceu… Fiz mais de cem mil pessoas cantarem e dançarem juntas (aquele hit) em um só lugar, em Salvador, e entrei para o Guinness Book (Livro dos Recordes). É muito louco pensar que era apenas um garoto de 19 anos vivendo intensamente. Não me preocupei com dinheiro. Com o que ganhei do Rebolation até hoje, já poderia estar aposentado (risos), se naquela época eu tivesse a cabeça que tenho hoje. Foi tudo muito intenso, TV ali e shows aqui, 30 por mês com cache de 250 a 300 mil, considerado muito para o meu gênero. Foi uma grande conquista, mas isso é a minha vida: estou no palco e é o que importa. Não a fama ou o dinheiro… Devo dizer que o único deslumbre que tive foi com a mulherada! Mas comecei a notar que ter a cara do Rebolation não era o que eu queria. Não tinha mais meu nome, e isso começou a me dar um incômodo absurdo. A música tinha se tornado mais forte que tudo, virou trilha de comerciais, me fez ganhar um dinheiro incrível e realizar meu sonho de moleque. Eu só queria viver com carro, apartamento e mulheres pra caramba! Imagine um garoto de 18 anos, símbolo sexual, moreno, sarado e de sucesso. Mas teve uma hora em que pensei em seguir carreira solo, e entendi que para ir em frente precisava mudar meu pensamento. Comecei a limpar a minha vida, a me focar ainda mais. Hoje tenho um repertório muito melhor e um cachê um pouco maior sem nenhum hit, mas com o sucesso, que é a parte mais incrível para um artista, pois é assim que você permanece por mais tempo
no mercado.

Vergonha dos pés
Odeio meus pés. Eles têm uma história engraçada: todos os dedos têm dois calos em cima e embaixo porque usei muito sapato apertado que não era meu. Na época eu calçava 40/41 (hoje é 45/46) e, como não tinha condições, meus amigos acabavam emprestando os deles, mas que ficavam apertando e roçando tudo lá dentro. Até hoje carrego essas marcas. Por isso, talvez, sapatos sejam meu maior deslumbre hoje, além de joias, tênis e bolsas. Não tenho nem ideia de quantos  pares tenho, talvez mais de mil. Faço doação de alguns, mas não paro de comprar!

Crush do Léo
Eu gosto muito do natural, do simples. Sempre brinco: “Pra quê esse salto? Coloca uma rasteirinha ou um vestidinho mais solto”. É claro que em certos lugares tem aquele negócio de chegar chegando. Mas no dia a dia, melhor a sandália rasteira, shortinhos, coisas mais leves. Também não gosto de muita maquiagem, prefiro a beleza natural.

Léo Santana em três palavras
Amigo, sincero e profissional.

Garoto TOP
Para mim, é uma grande quebra de barreiras ser capa da TOP Magazine, uma das revistas de luxo mais conceituadas, da qual muitos artistas renomados, entre atores, cantores e celebridades, também foram um dia. Hoje estou aqui para representar um movimento, um povo que é a minoria. Sinto-me muito lisonjeado, orgulhoso pela minha família e por toda a minha equipe, porque sozinho você não chega a lugar algum.

Vem conferir o nosso vídeo exclusivo com Léo Santana, nossa capa da edição 241. Corre nas bancas!

Foto: Miro
Vídeo: Jonathan Carvalho
Styling: Manu Carvalho
Beleza: Yanthi Brignol

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