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23 dez

Impresso para que te quero!

Mesmo na era digital e com a efervescência das redes sociais, jornais e revistas, impressos se mantêm como os veí­culos mais confiáveis. E os livros fí­sicos ainda são os preferidos da maioria dos universitários

POR Simone Blanes 4 MIN

23 dez

4 Min

Impresso para que te quero!

POR Simone Blanes

	

“Ao estudar o sistema de comunicação como um todo, veremos que novas mí­dias não surgem de forma espontânea e independente. Emergem gradualmente, da metamorfose das antigas, que não morrem, mas sim continuam a evoluir e a adaptar-se”. Essa frase, extraí­da do livro Mediamorphosis: Undestanding New Media, do pesquisador norte-americano Roger Fidler, é de 1997, mas até hoje aplica-se e explica muita coisa quando o assunto é a infindável discussão sobre o futuro do impresso, seja o jornal, as revistas e até mesmo os livros. Detalhe: há 20 anos, era apenas o começoo da chamada era digital e nem sonhávamos, por exemplo, com as mídias sociais. Durante todo esse tempo, porém, a tal pergunta continua dando pano para manga: será que os impressos estão realmente ameaçados de extinção? A resposta é simples: não. Segundo especialistas, incluindo o próprio Fidler e seu conceito de “midiamorfose”, assim como a fotografia não matou a pintura, o cinema não substituiu a foto e a televisão não extinguiu o rádio, a internet e as redes socais não vão exterminar as mídias impressas, e os e-books não vão enterrar os livros fí­sicos. Essas formas de comunicação vão, sim, coexistir e se complementar. Então por que ainda é tema para tantos questionamentos? Qual o desafio para a competição com a suposta rapidez das chamadas mí­dias sociais? “Para mim, isso gira em função da qualidade da informação. É um clichê, mas é verdade”, diz Thomaz Souto Corrêa, vice-presidente do Conselho Editorial do Grupo Abril. “Só que a qualidade tem um preço. Se eu quero muito uma informação, e me dizem que a partir da semana que vem, ou paga ou não tem mais, eu pago. Os jornais estão passando por essa experiência e as pessoas estão pagando. Ah, mas a gente se acostumou que a internet é de graça. Claro, quando é ruim, é gratuito. Agora, quando é bom, estamos dispostos a pagar, sim. Eu acho que esse é o futuro da mídia impressa em geral”, opina.

Proveniente dessa qualidade, o impresso “e seus respectivos conteúdos digitais” ainda goza de uma grande vantagem: a credibilidade. “A boa notí­cia é que as pessoas já começam a duvidar do que estão lendo nas redes. O famoso “fake new”, atesta Thomaz. Isso porque as mídias sociais definitivamente não são noticiários. Fato reconhecido pelo próprio Facebook, por exemplo, que, ao lançar o “Projeto Jornalismo” em 2017, contratou jornalistas e passou a trabalhar lado a lado com veí­culos de mídia para combater notícias falsas e mostrar a usuários fontes seguras de informação. Os números são provas disso. De acordo com o Ibope, em pesquisa encomendada pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República no ano passado, os impressos são os mais confiáveis como meio de comunicação, com 59% das opiniões, seguidos pelo rádio, com 57%, e TV, com 54%. Já 71% afirmaram não confiar no que leem nas redes sociais, 69% não acreditam em blogs e 67% não botam fé nos sites de notícias. Daí­ se entende por que dez entre dez pessoas, empresas, produtos e serviços ainda querem estar nas páginas dos jornais e revistas, sob a chancela de confiabilidade que traz o nome do veí­culo por meio de uma matéria, de um artigo assinado ou até mesmo de uma publicidade. Mas isso não quer dizer que tenham que parar no tempo ou não acompanhar as novas tecnologias. O ideal é apostar em informação rápida na internet e conteúdo no papel, só que de forma integrada e com boas histórias, que despertem o interesse sobretudo dos jovens. “É só ver que todas as revistas têm milhares de seguidores nas mí­dias sociais. Mas isso tem muito a ver com o público. A Capricho, por exemplo, saiu do papel e continua um sucesso na internet. Agora, vai fazer a Elle só no digital? O objeto dela é importante, assim como a TOP, revistas que queremos ler, folhear, marcar, rasgar página, guardar. A Veja é outra publicação relevante fisicamente, mas que tem muitos assinantes no digital por ser noticiosa. A história é sempre a mesma: o leitor”, exemplifica Thomaz. Ou seja, o futuro não tem nada a ver com substituição, e sim com adição dos dois universos: impresso e digital.

“Há 20 anos diziam que não teria mais papel em escritórios. E se entrar em qualquer um, nunca se viu tanto papel. Então isso é uma bobagem. Nesse caso de impresso e internet, são usos diferentes, que vão fazer com que algumas revistas não sumam nunca. Me irrita ouvir dizer: a revista vai acabar. Qual?”, questiona o jornalista. E a história comprova: uma mídia nunca desbancou a outra. Sempre haverá os leitores que, mesmo inseridos no universo digital, vão priorizar o contato direto com a leitura, o senso crítico, o documento em que nada pode ser deletado e o prazer de ler com atenção, sem pressa ou desvio de foco a cada propaganda que pula na tela eletrônica, assim como a web seguirá tendo seu lado bom pela agilidade de atualização, alcance global e interatividade. A real tendência é que todas as mí­dias continuem a coexistir, adaptando-se e reinventando-se de forma a se seguirem ativas e influentes, cada qual com seu público assí­duo e com o que tem de melhor a oferecer.

Extensão da imaginação 

Da mesma maneira que chegaram a “anunciar” a morte dos veí­culos impressos de comunicação, também o fizeram com os livros pela iminente ameaça dos e-books. Só que não! As versões digitais representam apenas 3% do total das vendas, segundo o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (SNEL). Isto é, assim como no caso de jornais e revistas, os e-books vão como complementos aos livros fí­sicos, e não para substituí­-los. “É fato que os impressos nunca vão acabar. São muito fortes. O futuro é que convivam muito bem com o digital”, diz Daniel Mazini, diretor para livros impressos da Amazon. “A internet até ajuda o acesso aos livros pela divulgação. Estamos vendendo muito mais do que no passado. Tem muita gente apegada a esse formato. Quadrinhos, por exemplo, vendem muito bem, fora os que se compram para dar de presente. Já os digitais, foram bons para os autores independentes”, completa. Ricardo Garrido, head de aquisição de conteúdo para Kindle, e-reader da própria Amazon, concorda. “Não há uma guerra, eles se complementam, e por isso oferecemos as duas possibilidades. O que importa é democratizar o acesso à  leitura e oferecer uma boa experiência às pessoas, independentemente do formato”. Vale lembrar que, em maio deste ano, a Amazon inaugurou uma enorme livraria fí­sica no centro de Manhattan, em Nova York, nos Estados Unidos, em um espaço de 370 m2, com mais de 3 mil obras disponíveis. Em São Paulo, uma iniciativa também atraiu olhares em 2017: a Incrí­vel Máquina de Livros, idealizada pela Infinito Cultural e pela Câmara Brasileira do Livro (CBL) como forma de estimular a leitura, fator determinante para desenvolver o raciocí­nio humano e a liberdade de ideias. Funciona assim: estacionada em lugares públicos da cidade, você deposita um livro na máquina, que te devolve outro diferente em troca. “Nossa ideia foi criar um jeito divertido de chamar a atenção para o livro impresso. Resgatar o prazer de ler, mostrando que é um passatempo delicioso e pode conviver tranquilamente com a internet. Entre um post aqui e uma pesquisa ali, separe um tempo para uma agradável leitura”, diz Fauze Hsieh, presidente da Infinito Cultural.

Voltando aos Estados Unidos, uma recente pesquisa da American University, em Washington DC, também legitima a força do livro em papel: 92% dos universitários da era www preferem os impressos aos digitais para leituras sérias. O estudo é parte do novo livro de Naomi Baron Words Onscreen: the Fate of Reading in a Digital World. Segundo a pesquisadora, isso se deve a dois grandes problemas: o se distrair facilmente nos meios digitais; e o cansaço nos olhos, as dores de cabeça e o desconforto físico. Sem dúvida, essa é mais uma questão a favor do impresso, seja ele qual for: como não emite luzes, não é prejudicial à  visão humana. E a chance de se desenvolver uma tendinite por deixar as mãos na mesma posição ou por movimentos repetidos dos dedos é bem menor. Mais: não funciona a bateria, não depende da inconstância do sinal digital e pode ser lido onde não tem energia elétrica, porque, verdade seja dita, ainda tem muito lugar onde a internet simplesmente não pega. Em suma, mesmo com todas essas questões, indagações e teorias da conspiração – ou não -, o fato é que o impresso se mantém como um meio de comunicação que realmente deu certo. Em especial se pensarmos que dura há séculos. E a internet e as redes, será que também estarão aí­ por tanto tempo? Só Deus sabe… A nós basta entender que o passado é que nos faz acreditar que o futuro pode ser um presente surpreendente.

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