TOP Magazine

Fim

Espetáculo de Felipe Hirsch mostra sarcasmo inteligente e deslumbre visual

POR Marcio Aquiles, com exclusividade para a TOP Magazine 4 MIN

15 mar

4 Min

Fim

POR Marcio Aquiles, com exclusividade para a TOP Magazine

	

De uma radicalidade acirrante, o espetáculo “Fim”, encenado por Felipe Hirsch no Sesc Consolação, é uma joia rara em cartaz nos palcos paulistanos. Tem de tudo um pouco na montagem: sátira política, paródia com a própria linguagem verbal e cênica, desconstrução dos cânones artísticos e pirraça com a contemporaneidade – palavra esta, por sinal, já bastante gasta, devido ao uso excessivo pela ala pernóstica da intelectualidade.

Embora se trabalhe com referências teóricas sofisticadas e exista uma teia expansiva de intertextos que atravessa diversos territórios, a peça tem uma gramática simples; consegue ser didática – em sua forma e conteúdo – e amistosa para qualquer perfil de público, e não apenas para iniciados, como manifestações artísticas dessa ordem geralmente são.

Trata-se de uma porta de entrada obrigatória para quem deseja conhecer mais sobre um tipo de teatro que, por sua riqueza ficcional e acabamento estético, jamais irá sucumbir perante outras formas de manifestação artística, como séries e games, por exemplo, igualmente potentes como produtos culturais, embora cada vez mais soberanos no gosto das gerações mais jovens – ponto perdido, portanto, para grupos que ainda insistem em mandar teatro anacrônico nos moldes do século 19 goela abaixo do espectador cada vez menos presente.
O espetáculo é um deslumbre sensorial, tem punch, é uma mistura de rock n’ roll com ópera, instaurado numa sintaxe de rupturas, com movimentos ora orgânicos, ora artificiais, algo que flerta, em seus aspectos plásticos e dramatúrgicos, com a dança-teatro da Pina Bausch e a superabundância de signos de Frank Castorf, respectivamente.

A montagem é dividida em quatro segmentos. “O Fim das Fronteiras” traz um Renato Borghi impagável, falando inglês e espanhol, com uma intérprete desvirtuando a tradução. Na segunda parte, “O Fim da Arte”, temos dois professores num jantar surrealista à la Buñuel, debatendo o Potato Jesus de Cecilia Giménez e a contingência dos critérios do cânone. Não há, contudo, um fio de pedantismo; a cena é generosa, intuitiva, desenhada em diálogos e ações físicas capazes de divertir e promover interessantes reflexões para qualquer tipologia de espectador. A comicidade e sarcasmo prosseguem no segmento “O Fim da Nobreza”. Finalmente, no arremate, “O Fim da História”, o espetáculo atinge seu ponto mais sublime, é de arrepiar, a cena provoca um estado de êxtase e arrebatamento que somente uma (excepcional) performance ao vivo pode alcançar – destaque para a condução musical por Maria Beraldo e Mariá Portugal, de uma beleza ímpar, em perfeita sincronia, e crucial na encenação como um todo.
O encerramento é distópico, revelando o esfacelamento de um país em que fanáticos de todos os matizes são capazes de passar por cima de qualquer coisa para preservar suas crenças dogmáticas e idolatrias inexoráveis aos seus profetas infalíveis e super-humanos. As diversas ironias em relação ao conteúdo programático da (persistente ou ultrapassada) pós-modernidade, a propósito, são um dos vários fios condutores por meio dos quais podemos apreender a ficção exposta. Imprescindível para que quiser presenciar um evento estonteante, do mais alto nível artístico.

Marcio Aquiles é escritor e crítico de teatro. Autor dos livros “O Eclipse da Melancolia” (Patuá), “O Amor e outras Figuras de Linguagem” (Giostri) e “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário (É Realizações), entre outros.

Serviço

Sesc Consolação; quintas, sextas, e sábados, às 21h, e domingos, às 18h.

 

Foto: Elisa Mendes

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO