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Facundo Guerra

EMPREENDEDOR DE SUCESSO E REFERÊNCIA NA NOITE PAULISTANA, FACUNDO GUERRA APRESENTA PARA SÃO PAULO UM NOVO CONCEITO DE LUXO: “ELE PASSA MUITO MAIS PELA EXPERIÊNCIA DO QUE PELA POSSE”

POR Vivian Monicci 5 MIN

26 nov

5 Min

Facundo Guerra

POR Vivian Monicci

	

Quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha? Difícil dizer… Assim como quase ninguém sabe dizer ao certo como alguma coisa ou lugar que nunca esteve no radar da maioria, de repente, ca badalado. O que veio primeiro: a transformação de um espaço porque ele come- çou a ser procurado, ou o espaço foi transformado porque começou a ser procurado? Se tem alguém que tem essa resposta é Facundo Guer- ra. Empreendedor de sucesso e referência na noite paulistana, ele está transformando o Centro de São Paulo em um point como há muito tempo não se vê. “As pessoas não frequentavam locais como Centro, Santa Cecília e Barra Funda porque não havia coisas legais para fazer, e ninguém montava algo porque não tinha público, além de existir essa ideia de que era inseguro e local de dependentes químicos”, explica. “Mas basta uma ou duas se arriscarem para gerar uma onda: as pes- soas começam a frequentar e outros empresários passam a olhar para o centro e perceber que não é tão arriscado assim.” Nascido em Córdoba, na Argentina, ele cresceu em uma família politizada de militantes de esquerda — seu avô era superintendente do Partido Comunista Brasi- leiro. “Quando teve o golpe em 1964, ele tinha sido preso e torturado mais de 30 vezes, então meu pai fugiu para a Argentina, onde conhe- ceu minha mãe. Voltamos para o Brasil no começo da década de 1980, época da anistia.” Apesar de ser naturalizado brasileiro, ele nunca se encontrou em nenhuma das duas cidadanias.

“Não pertencia a nenhum dos dois. São culturas distintas, antagonistas. Acho que preconceito é uma palavra muito forte, mas eu era alvo de piada. Brasileiro sempre foi um pouco cruel com argentino.” Só que o início da vida no país não foi difícil apenas pela questão cultural. “A gente era de classe mé- dia baixa. Minha mãe era secretária, mas cou desempregada e vendia empanada na rua… Meu avô era vendedor ambulante. A gente morava em Santa Cecília e eu acreditava que tinha que mudar de classe social pelo estudo.” E foi isso o que fez: estudou como bolsista no Colégio Bandeirantes, formou-se em engenharia de alimentos no Instituto Mauá de Tecnologia e em jornalismo na PUC-SP, onde também fez mestrado e doutorado em ciências políticas. “Mas eu nunca quis ter meus negócios. Acho que é algo que vem da família, essa ideia de não respeitar autori- dade burra, sabe? Simplesmente porque a pessoa está em uma posição hierárquica maior do que a minha, devo pressupor que ela é melhor ou mais sábia do que eu. Sempre tive alergia a autoridade e burocracia. Até os meus 30 anos, trabalhei em corporação, que é exatamente um elogio a tudo isso que rejeito.” Mas não teve jeito: precisou se aventurar como empresário quando cou sem opções após passagens por grandes em- presas como Tetra Pak, American Express e Aol. “Quando trabalhava na America Online, no início dos anos 2000, o mercado estava vivendo uma viagem de ácido. Eu era jovem e ganhava muita grana, era uma bolha. Depois da demissão, eu não conseguiria voltar, porque já tinha acelerado minha carreira de maneira anabolizada.” Em 2005, abriu o Vegas Club, casa noturna na região do Baixo Augusta. “Eu queria tocar o puteiro (risos). Não tinha ambição, queria ganhar dinheiro su ciente para viver, pagar minhas contas. Era um menino esforçado e trabalha- dor, então fui aprender como se faz boate, casa de show, restaurante.” Foi aí que Facundo descobriu a cidade de São Paulo. E virou o “rei da noite paulistana” por “recuperar locais abandonados da cidade”.

supõe um olhar de que o lugar está deteriorado. Aí quando a classe média e elite voltam a frequentar, é revitalizado. Não gosto. Mas passei a me inte- ressar por essa história e me encontrei numa identidade como paulistano, não como brasileiro.” Essa identi cação lhe rendeu frutos nos últimos 14 anos, sendo que alguns já não existem mais ou estão sob o comando de outras empresas, como o Vegas Club, que fechou em 2012, o Volt (2009- 2015), o PanAm (2015-2017), o Mirante Nove de Julho (hoje propriedade da Holding Clube, de José Victor Oliva) e o Cine Drive-In (2016-2017). Mas, a nal, o que deu errado? “Nada. Para mim, sempre dão certo, por- que me satisfaço montando um negócio. E me possibilitaram um ganho de capital político. Existiram pelo tempo que tinham uma justi cativa para existir. Lembrando que os negócios de noite são perecíveis e o ciclo deles é de dois anos”, analisa. “Já perdi dinheiro várias vezes e, apesar de ser im- portante, não é a única razão para fazer um projeto. Eu empreguei gente, mudei a vida de pessoas, aprendi, dei risada e tive orgulho de montar algo. Isso é dar certo pra caralho. Tem gente que perde dinheiro comprando car- ro, apartamento, coisas tão egoístas! Eu perdi dinheiro montando coisas, contratando fornecedores, gente, artistas… Não tenho arrependimento.” Se fôssemos pesar em uma balança os negócios de Facundo, ela penderia muito mais para o lado de seus êxitos, que seguem fazendo a noite dos paulistanos. A boate Lions Nightclub, por exemplo, está aberta há dez anos. O Cine Joia, a Yacht e o Riviera também estão próximos de comple- tar uma década. Mas 2019 deve ter um sabor especial, já que inaugurou dois grandes points: o Bar dos Arcos, no subsolo do Teatro Municipal — um de seus “grandes acertos pro ssionais” — e o Blue Note São Paulo, casa de jazz original de Nova York trazida por ele e por um empresário carioca para o Conjunto Nacional, na Avenida Paulista.

Em 2020, ele deve ainda abrir as portas do Arcade — projeto em parceria com a Comic Con e a Game XP, dentro do Cine Ipiranga — e do Carrossel, um cabaré não sexista que ainda não tem local de nido. Fora sua agenda paralela, bastan- te corrida: presta consultoria para o bar In ni (no Largo do Arouche, que deve abrir as portas em breve), cuida da ativação da fábrica de chocolates Dengo, está no conselho da C&A, em projetos dentro da Ambev e tocan- do seu mais novo negócio, o Ilha, espaço de eventos na frente da Ponte Estaiada. Ainda monta um curso online sobre empreendedorismo, dá pa- lestras e se dedica à sua nova paixão: tirar fotos de São Paulo com drones, o que já lhe rendeu duas campanhas com a Schutz. Mas o mais curioso, talvez, seja o Altar, que constrói casas para o pós-apocalipse. “São casas de 40 m2 afastadas dos centros urbanos, autossustentáveis e com uma horta robótica. Já estamos fabricando quatro e, no começo, vamos alugar via Airbnb.” Sem dúvida, Facundo provoca uma metamorfose em São Paulo. As mudanças propostas por ele e as bandeiras levantadas criam cada vez mais raízes positivas na cidade — prova disso é o título de Cidadão Paulis- tano que recebeu na Câmara Municipal de São Paulo. “Não tem nenhuma cidade no mundo onde o Centro é deteriorado e desocupado. Ainda existe uma pressão para as pessoas saírem de casa e socializarem, mas quem é empreendedor tem que ir onde é mais barato, investigar novos lugares. Uma coisa começa a acelerar a outra.” Fato é que as pessoas enxergam o luxo de outra forma. “Eu acho que o meu público entendeu que o novo luxo passa muito mais pela experiência do que pela posse. É incontestável que se compõe por uma nova elite, menos ostensiva nos seus gastos, que não ca se mostrando dentro de um jatinho. Esse luxo antigo da posse virou cafona, está datado e descolado do tempo.”

FOTOS: MIRO

STYLING: ARTHUR RIBEIRO

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