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09 maio

Fabio Assunção

É um homem que vive tudo intensamente, com uma urgência que, às vezes, até pode assustar. Mas ele tem um sorriso e um coração tão francos que sempre termina por nos encantar

POR José Luiz Villamarim 5 MIN

09 maio

5 Min

Fabio Assunção

POR José Luiz Villamarim

	

Quando Fabio me pediu para escrever sobre ele, perguntei se nós não poderíamos fazer esse exercício do jeito que mais nos sintonizamos nos últimos anos. Seria assim: eu dirijo e ele dá vida a um personagem. Antes da resposta, sorri sozinho, pois sabia que, em se tratando de uma revista impressa, isso não seria possível. A vida tem esses descompassos… Restou-me, então, recorrer às palavras, sempre elas, matéria-prima da dramaturgia, para falar de alguém que admiro e que quando grito “ação!”, em geral, me surpreende dando luz à zonas pouco visitadas do humano. Fabio é um homem que vive tudo intensamente, com uma urgência que, às vezes, até pode assustar. Mas ele tem um sorriso e um coração tão francos que sempre termina por nos encantar. E, assim, vamos juntos adiante. Como o juiz Carlos Ramiro Curió, da comarca da cidade fictícia de Sertão, na supersérie Onde Nascem os Fortes, atualmente em exibição na Globo, buscamos na lida diária do set de filmagem o que temos de melhor para dar. O amor de Fabio por seu ofício é um ritual de quem sabe que só se consegue ser pleno no mundo da ficção. Afinal, no mundo real, seguimos sempre incompletos, por isso, buscamos o próximo personagem e um novo ângulo de botar a câmera, numa agonia para não morrer de verdade.

José Luiz Villamarim: Nós nos conhecemos há mais de 20 anos. E eu sei que você é uma pessoa intensa e profunda. Qual a matéria-prima que a vida te deu e continua a te dar para compor seus personagens?

Fabio Assunção: Sim, 22, 23 anos. E que prazer perceber que o tempo nos junta novamente. Isso me coloca numa situação complicada, não posso mentir nem um pouco aqui. (Risos.) Mas não vai ser difícil. Afinal, a verdade é a grande matéria-prima. De tudo. Não é dizer coisas que te valorizem, e sim ter uma visão clara sobre si mesmo. Esse pensamento é prioritário também na composição de um personagem. Perdi pessoas por falar o que acredito, mas não as traria de volta se fosse para exercitar a mentira. Contagiaria meu trabalho e o menino que sobrevive em mim.

A vida me deu paixão, amor, raciocínio apurado, mas não me deixa acreditar em nada disso. Então, é por essa falta que procuro me realizar com aquilo que tenho na alma, desconfiado, mas confiante de que vai dar certo. Tenho fé cênica. Me sinto melhor dentro dos personagens do que fora deles, pois é na troca e fraternidade que encontro no trabalho que me sinto maior.

No momento em que existe um convite para um novo trabalho como ator, o que faz você dizer sim para um personagem? E o que te faz dizer não? Antes de ler qualquer texto, já sei se quero ou não mergulhar nele pelas pessoas envolvidas. Em qualquer personagem se pode encontrar vida, um caminho crível, mas não trabalhamos sozinhos. Uma equipe de primeira sustenta minhas escolhas como ator. Não há personagem que não possa ser um desdobramento de algo meu. Sem uma turma comprometida com todo o processo, tudo se torna desgastante e desnecessário. Um mero trabalho.

 

Você é um homem sem medo da vida. Já viveu as várias formas do desejo e até mesmo a tragédia dele. O que lhe falta? E o que lhe sobra? Sinto uma energia poderosa que me motiva e me impulsiona, mas tenho, sim, medo da vida, particularmente dos desejos. Desejar é se colocar em risco, e a tragédia do desejo é uma espiral que pretende eternizar o prazer, mas talvez fosse mais trágico não desejar. Hoje procuro o desejo nas tarefas cumpridas do dia a dia, na vivência de cada coisa que faço simplesmente. Me falta a capacidade de perdoar, a mim e aos que se foram. E me sobram oportunidades para colocar isso em prática.

 

Com 28 anos de carreira, você já percorreu o caminho do galã, passando pela comédia, até ser um ator dramático maduro. Qual a posição em que você se sente mais confortável? O que se perde e o que se ganha com os anos de profissão? Gosto do trágico. Gosto de jogar com o psicológico em cena, estudar os detalhes, os olhares, modular a intensidade do jogo cênico, escutar o som ambiente. Não sou um ator tão físico, a não ser quando o personagem exige. E gosto de sentir o tempo e o silêncio em cena. Gosto das emoções tristes, de vivenciá-las em uma dramaturgia densa. E com os anos, o repertório intelectual aumenta. Esse trágico encorpa com as experiências da vida. O que se perde? Talvez deixar de ser novidade. Fica mais difícil enganar o público. (Risos.)

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Fotos: Miro

Styling: Manoela Fiães

Beleza: Ana Ana

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