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 Deu Onda… Gigante!

O PAI TE AMA, CARLOS BURLE! SÓ MESMO COM MUITA AJUDA DIVINA, MUITA TÉCNICA E MUITA EXPERIÊNCIA EM LIDAR COM A FÚRIA DO MAR É POSSÍVEL SURFAR VAGALHÕES TÃO MONSTRUOSOS

POR Kike Martins da Costa 5 MIN

19 maio

5 Min

 Deu Onda… Gigante!

POR Kike Martins da Costa

	

Carlos Burle é um pernambucano tranquilo que passa metade do tempo com sua família na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, onde mora há anos, e a outra metade circulando por algumas das mais incríveis praias do mundo. Mas sua vida não é fácil! E raramente ele tem a oportunidade de relaxar e tomar um sol – na grande maioria das vezes, vai a essas praias no inverno, quando elas são o cenário de ressacas e das ondas gigantes que ele se especializou em surfar.

Em outubro de 2013, por exemplo, Burle dropou um vagalhão com 100 pés (30 metros) de altura na Praia do Norte, em Nazaré (Portugal). Essa pode ter sido a maior onda já surfada por um homem, mas até hoje ainda aguarda a homologação pelo Guinness Book of Records. “Ser um surfista de ondas gigantes exige um desapego e uma ausência de vaidade, porque em todas as fotos ou vídeos, você só aparece como um pontinho ali no meio do mar em fúria”, conta ele, entre as gostosas risadas que deu durante sua entrevista, diretamente do North Shore havaiano, onde costuma ficar de janeiro a março. De sua casa, dá para ver a ondulação entrando na lendária praia de Waimea, em que ondas com mais de 15 metros são relativamente comuns nesta época do ano.

Mas vamos ao início… Burle começou a surfar ainda na adolescência, em Recife, sua cidade natal. Descia ondas pequenas e relativamente fracas nas praias de Piedade e Boa Viagem e tinha esse esporte apenas como um hobby. Seu pai era dono de uma loja de autopeças e já estava se programando para passar o comando do negócio para o filho quando, em 1985, o moleque participou de uma etapa do campeonato brasileiro de surfe e terminou na quinta colocação. Aí apareceram diversas empresas interessadas em patrocinar o garoto, e ele se livrou do perrengue de ter de suceder seu pai como comerciante.

Mudou-se para o Rio e passou a frequentar o pódio de várias competições nacionais no circuito Noronha-Saquarema-Ubatuba-Floripa. Depois ganhou o mundo, tornando-se habitué de picos na Califórnia, no Havaí e na Austrália. Em 1998, no primeiro Campeonato Mundial de Ondas Grandes na Remada, disputado em Todos os Santos, México, sagrou-se campeão pela primeira vez nessa modalidade. Na Califórnia, em 2001, surfou uma onda de 22,6 metros, em um local conhecido como Mavericks, algo inacreditável para a época. Este feito lhe rendeu uma menção no Guinness Book of Records e o título daquela temporada no XXL, o Oscar do surfe em ondas grandes. Burle foi também o primeiro brasileiro, junto com o parceiro Eraldo Gueiros, a surfar a onda oceânica de Cortes Bank, a 100 milhas da costa de San Diego.

Foi ainda o único atleta nacional a participar do Eddie Aikau, evento de megaondas que é realizado no berço da modalidade, a Baía de Waimea, no Havaí. Na temporada 2009/2010, sagrou-se campeão do primeiro circuito mundial de ondas grandes na remada. “Sinceramente, não lembro quando foi que surfei a minha primeira onda gigante, fui crescendo gradativamente. Este, aliás, é um conceito que está sempre sendo atualizado. Há alguns anos, uma onda de 15 metros era um monstro. Hoje, depois que começamos usar jet skis para nos catapultar dentro das megaondas, para ser considerada gigante de verdade, uma onda precisa ter uns 20, 25 metros”, avalia.

E essa é uma atividade para poucos atletas, pois é preciso estar com a parte física e a cabeça permanentemente próximas do máximo para encarar essas indomáveis montanhas de água. “Temos de dormir e comer bem, além de fazer uma preparação física muito pesada para lidar com o inesperado e saber o que fazer diante da força e da energia dessas ondas”, diz. “A cada semana, faço três sessões para exercitar a força e a elasticidade, três sessões de atividades que trabalham a minha capacidade cardiorrespiratória e tento surfar um pouco todo dia, para aprimorar sempre minha habilidade de ‘ler o mar’”. E não para por aí: “Também pratico stand up paddle, ioga, bike e faço meditação, reiki, quiropraxia e acupuntura”. Acho que o mais importante, “quando está descendo uma onda de mais de 20 metros, é ter todos os sentidos em alerta e transformar a experiência acumulada ao longo dos últimos anos em tranquilidade para domar a fúria do oceano”, explica. Sem contar ainda que também depende da natureza, já que as ondas gigantes não estão sempre disponíveis para o big rider treinar. Às vezes acontecem aqui, outras vezes, ali. E o atleta é que tem de ficar se deslocando atrás delas.

Mas, afinal, o que leva um homem de apenas 1,73 metro tentar levar a melhor ao encarar bestas-feras com mais de 25 metros? “Não sei dizer ao certo. Pode parecer clichê, mas o fato é que estar tão perto da morte faz com que eu me sinta muito, muito, muito vivo”, afirma. “Estou com 49 anos e tenho dois filhos (Iasmin, de 18 anos, e Reno Kai, de 7). Mas lá no alto da onda, sinto que a minha família está comigo e me dá forças. Eu deveria procurar uma atividade menos arriscada, mas é isso o que gosto de fazer. O chato é que sempre que acontece uma contusão, agora ela demora cada vez mais tempo para curar. Infelizmente estou sentindo a idade pesar”, admite o surfista, para quem o medo é uma importante ferramenta – “é ele que faz você conhecer os seus limites”, diz.

Após ter surfado ondas gigantes na Califórnia, no México, em Fiji, na África do Sul, no Chile e até mesmo na Irlanda, Carlos Burle está aos poucos deixando de ser um competidor e assumindo o papel de treinador. Por dez anos, ele foi o mentor de Maya Gabeira, filha do escritor Fernando Gabeira, que por pouco não morreu naquela mesma praia de Nazaré, em Portugal, após ser derrubada pela potência de uma onda monstruosa, que poderia facilmente afogá-la ou fazer com que se estraçalhasse contra as pedras. Quem a salvou foi o destemido Burle, que, montado em um jet-ski, foi até a arrebentação buscá-la.

Outro pupilo desse mestre dos mares foi Pedro Scooby, marido da atriz Luana Piovani, que acabou optando por uma vida mais pacata. E seu atual aprendiz é Lucas Chumbinho, de 21 anos. “Fico impressionado com a gana e o foco desse garoto. Ele está determinado a ser o campeão mundial, parece que nada vai detê-lo, e eu quero estar perto dele quando isso acontecer”, orgulha-se. “Trabalhar com o Chumbinho está me ajudando muito nessa fase da minha vida, e faz com que essa transição seja tranquila e sem tristezas. Dessa forma, vou me afastando um pouco das competições, mas não rompo totalmente a minha relação com o esporte”, confessa.

Longe das ondas, o futuro de Carlos Burle também já está garantido. Ele é um excelente palestrante, e sua agenda está repleta de apresentações para executivos de empresas como Volkswagen, Vale, Brastemp, Skol, Mitsubishi e Herbalife. “Gosto muito desses eventos corporativos. É uma chance de levar o meu esporte a novos ambientes e dividir as minhas experiências com outras pessoas. E eu tenho muito a dizer, por isso aposto em mais de um tipo de palestra. Pode ser algo mais motivacional, mas também posso falar de gerenciamento de riscos, de marketing pessoal, de vida saudável, de superação, de concentração e foco… Dependendo do perfil da plateia, monto uma sob medida”, conta o surfista, que ao contrário do estereótipo, é extremamente articulado e fala muito bem.

Para completar, Burle e seu staff – que chega a oito pessoas trabalhando diretamente com ele o tempo todo – também pilotam a loja virtual www.carlosburle.com/shop (um e-commerce de produtos como skates, óculos de sol, sandálias, pranchas e roupas de neoprene), produzem o programa Gigantes do Mar para o canal por assinatura Off e preparam ainda para 2017 um livro autobiográfico, a ser lançado pela Editora Sextante. “Vou mostrar que não sou um super-herói, apesar das minhas conquistas. Conto detalhes da minha vida de uma forma bem crua, verdadeira e emocionante. Sabia que, durante 11 anos, eu tive uma alergia alimentar que me impedia de comer qualquer fruto do mar? Foi muito difícil superar isso! Imagina só, eu vivendo 99% do tempo na beira do mar ou dentro dele e não podendo comer peixes, camarões, lulas etc.?”, sorri.

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