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CLAUDIA LEITTE

Ela é linda, loira, carioca, baiana, do Brasil! Mulher, mãe, filha, esposa, cantora, artista de verdade... Que canta, dança, compõe, dirige, escreve roteiros de seus shows, letras de suas músicas, enredo de sua própria história.

POR SIMONE BLANES 7 MIN

13 nov

7 Min

CLAUDIA LEITTE

POR SIMONE BLANES

	

Se fosse tentar definir Claudia Leitte em uma frase, escolheria uma célebre de Leonardo da Vinci. “O objetivo mais alto do artista consiste em exprimir na fisionomia e nos movimentos do corpo as paixões da alma.” É exatamente o que ela faz e, por isso, é uma das mais completas artistas da atualidade: canta, dança, compõe… E vai além. É ela quem escreve o roteiro de suas apresentações. “Meu cérebro funciona assim, como se estivesse escrevendo uma redação.” É dela também toda a direção de seu show. “É que eu gosto de contar histórias.” E nesse pique todo, que lindamente concilia com o lado família, esposa de Márcio Pedreira e mãe zelosa de David, de 10 anos, Rafael, de 7, e Bela, nascida em 20 de agosto – “uma força feminina que me deu ainda mais gás” –, Claudia brinca, faz piada, sorri, mas na hora do vamos ver, mostra que não está de brincadeira. Nunca esteve, aliás. Em 18 anos de uma elogiável e sólida carreira, Claudinha Bagunceira é só no palco. Para ela, música é coisa séria. “Comecei minha carreira muito nova, mas hoje tenho consciência do que vou deixar aqui. Estou a serviço das pessoas para passar uma mensagem boa. É aquela coisa: ou acha que a sua música não tem um propósito e faz para ganhar dinheiro, ficar rico e as pessoas gritarem seu nome, ou vai acreditar que existe algo a ser feito. Escolho a segunda opção”, diz ela, que acaba de lançar o Bandera Project, composto da canção vibrante de mesmo nome, de um novo álbum, turnê, planejamento para o Carnaval 2020 e, claro, levantar algumas bandeiras, que incluem o amor, a alegria, as causas sociais que defende – em especial voltadas às crianças e mulheres – e a sororidade feminina, ainda mais agora, sendo também mãe de menina. “Amo meus filhos de forma igual, mas Bela tem um lelê de mulher que me fez powerful”, diz. Ah, e tem a fé. “Deus é o mais importante, coloco acima de tudo… Não consigo fazer nada sem Ele.” Voltando a falar em alma de artista, é como diria o escritor norte-americano Henry Miller: “Um artista é, antes de mais nada, uma pessoa que tem fé em si mesma.” Sim, Claudia Leitte tem, e de sobra.

Bandera, bandeira, flag…

Bandera é uma música que fala inglês, português e espanhol. É o resultado de mais de três compositores, que deu nisso. A gente não queria mudar, começou em espanhol, veio uma parte em inglês e eu coloquei um pedaço em português, mas quando tentamos fazer algo para adaptar, não rolou. E ficou assim! Compus essa música há dois anos, parecia uma colcha de retalhos, mas quando vi uma história feita, sonoridade e uma batida definida, resolvi colocar para fora. Cantando em espanhol, me sinto bem sexy; em inglês, é uma coisa mais forte, que sai; e em português sou muito do trio elétrico: são três mulheres diferentes que acontecem ali. Dessa caixinha de onde saiu Bandera tem mais canções e um álbum chamado Bandera Move, a hashtag que estamos usando para fazer as pessoas se movimentarem em prol de suas bandeiras. Te faz feliz? Levanta a bandeira.

Profeta do axé

Eu sou de uma geração anterior a essa que lança tudo no digital. O mercado e o comportamento da indústria da música é completamente diferente, e nessa transição eu tive que me adaptar. É um novo momento, mas me lembro, por exemplo, de ir para o Carnaval com Corazón, em espanhol, e ver todo mundo cantando. De arrepiar! E olha que nem tinha o Despacito ainda. Sou uma profeta do axé (risos), mas isso foi um norte para mim: experimentar. Tive um momento de grande aprendizado, de analisar qual a minha bandeira e redescobrir qual meu jeito de trabalhar nessa nova situação. Sou uma artista, gosto do palco e de contar histórias. Na escola, minha matéria preferida era redação, e meu cérebro funciona assim. Aí começo a me vislumbrar no palco, cenário, roupa e as músicas em um começo, meio e fim. Isso não muda!

Minha bandeira

É o amor e não tem como não ser. Parece clichê, que estamos sendo inconvenientes ao falar de amor. Mas é isso que me motiva. Sabe aquilo de olhar com indiferença? Isso é falta de amor. Por mais que as pessoas tenham tudo o que o dinheiro pode comprar, sem amor não rola. Estou longe de ser uma mãe perfeita, mas meus filhos são criados com amor. Falo para eles: não tem amor, então não vá, não faça. Essa é a minha bandeira: a compreensão, a consciência e, acima de tudo, o amor.

Falando em filhos…

Sou acostumada a cuidar de pintinho, e agora veio minha xixica. Estou muito feliz! Amo meus filhos igual, mas Bela me deu uma vontade, um gás… Tem um lelê de mulher que me deixou powerful. Eu estou apaixonada, meu Deus do céu, estou muito besta. Veio a princesa! E sabe que Bela é a minha favorita da Disney. A mais forte, a mais sensata, a mais culta. Mas estou conciliando bem! Tenho uma equipe maravilhosa que me respeita como gente, então faço tudo. Nunca ia conseguir cantar num palco e fazer o que eu faço se não desse uma olhada e visse meu neném ali, sabe? Às vezes, estou em conference call, amamentando, e Rafa e Davi fazendo a maior bagunça. Tenho que pedir para pararem de gritar porque, olha, quando a gente tira o eletrônico, parece que eles estão ligados no 220! Rafael acha que Bela é um pet (risos), aí você: ai, meu Deus, a moleira da menina (mais risos). E Davi é todo paternal, acha que pode levar ela no colo… Tem hora que dá aquela coisa “ah, não vou conseguir”, mas são segundos, e logo vem: o quê? Tá maluca? Meu nome é Claudia Leitte! Não está fácil, mas está massa! Sou guerreira, mas preciso de gente: minha mãe, meus anjos da equipe, e os fãs que me ajudam a segurar essa onda também!

Culpa de quem?

Sabe esse dilema que toda mulher sente quando vai trabalhar? É real, independentemente do estágio em que ela fica de maturidade. É a minha terceira gestação, ativa, trabalhando. É a coisa mais linda do mundo, meus filhos são demais, mas eu preciso cantar. É importante parar e estar com os filhos, porque isso traz um equilíbrio necessário para a mulher, mas não posso deixar de fazer música, que alimenta a minha alma. Não dá para comparar, preciso das duas coisas. Sou mãe, mas sou cantora também!

Bela é brasileira!

Bela me fortaleceu, era uma força feminina dentro de mim. Quando tive Davi, estava em Salvador e fiz o Carnaval. Foi uma das experiências mais loucas da minha vida, mas era muito nova, simplesmente fui. Na vez do Rafa, era a estreia do The Voice Brasil na televisão brasileira. Recebi o convite e gravei a abertura com nove meses. A equipe foi toda para a Bahia, porque eu não podia mais viajar. E, agora, estava finalizando esse projeto em Los Angeles: ou concluía ou atravancaria todo. Estava certa de que ia voltar, mas conheci um médico lá, liguei para meu obstetra aqui, que deu o aval. E meu marido disse que não podia fazer tudo daquele jeito, que era uma bebê, então Bela nasceu lá… Mas é brasileira, viu?

E eu sou baiana!

Nasci no Rio de Janeiro, mas fui para Salvador com cinco dias. O sangue é carioca, mas sou baiana, oxente! (risos). Sabe que quando lancei a música Saudade, me perguntaram no Twitter se eu tinha saudade de quando era pobre. Mas eu nunca fui pobre, só não tinha dinheiro. Nunca me faltou nada, e em tudo que pedi a Deus fui atendida. Para mim não existe isso de não vai dar. Mesmo quando estava difícil, ruim, doendo, fazendo chorar, eu sabia que ia conseguir.

Olhando para trás…

Para ser sincera, o que conquistei e o que vivo hoje é muito melhor do que pensei. E olha que eu imaginava, viu? Me via no palco, o povo entrando… Abria o armário e ensaiava com a escova na mão, apresentava o programa para eu mesma cantar, tenho essa memória. Minha mãe achava que era só brincadeira, que eu ia me formar. Ela tinha o pensamento de que era muito mais garantido fazer a faculdade e trabalhar. A gente morava em frente à casa de Batatinha, um dos maiores compositores da Bahia, que tinha dupla jornada de trabalho: fazia samba com Paulinho da Viola, mas, de dia, pegava sua pasta e seguia para o Fórum, então para minha mãe era isso. Me dar a melhor educação possível para que tivesse uma vida que não fosse de dificuldades. Meu pai já era mais empolgado, reunia a família e pedia para eu cantar nos barzinhos. Só que eu entrei na universidade, fazia direito na Faculdade Católica da Bahia e curso de comunicação, onde conheci Mirela, uma das minhas melhores amigas, que me levou no prédio de artes. Lá, conheci o meu diretor musical Luciano Pinto, fui parar na Cia do Pagode e, com 18 anos, montei o Babado Novo.

A beleza está nos olhos de quem vê

Acho que não tenho um padrão de beleza, até porque gosto de me arriscar. E do que me faz sorrir, sabe? Sempre achei a Emma Watson linda, desde os primeiros filmes do Harry Porter eu pensava: essa menina vai ser a coisa mais linda. E ela foi Bela no cinema. Eu vejo os traços tão incríveis, tem uma coisa de desenho renascentista no rosto dessa mulher e posso dizer que gosto da sutileza do olhar, da força do sorriso, mas também adoro gente que dá risada. A beleza está muito mais associada à alma do que à estética. É experimentar, no que, muitas vezes, pode nem parecer bonito. Uma vez, usei um turbante feito de cabelo no Carnaval. Teve gente que disse que não estava bonito, mas eu estava achando incrível. Gosto de me ver diferente, de ser desafiada. Isso é belo.

Olhar nos olhos

É outra coisa linda! Para mim, não existe a possibilidade de fazer um show e não olhar nos olhos das pessoas. E sempre vou estar disposta, mesmo que não esteja. É muito mágico. Tem hora que vejo uma pessoa lá embaixo e essa troca de energia me remete a alguma coisa que quero falar e pronto: as ideias nascem do meu juízo ou da minha falta de juízo. Há anos, eu penso em temas de Carnaval para construir uma história. Sou criativa, tenho um caos ali, mas me encontro na minha bagunça. Então, o Carnaval funciona assim: rola uma confusão de cores, de ideias, mas tem algo sendo contado, que tem a ver com tudo, repertório, momento de vida, sentimentos. E estar ali no palco, o lugar onde mais me sinto confortável! Às vezes, estou com uma TPM desgramada, mas subo no trio e passa tudo, é impressionante. É troca, vou dar o melhor de mim, sempre!

Andar com fé

Apesar de tudo o que sinto e vejo, tenho fé nas pessoas. Tem hora que a gente procura soluções fora ou achamos que o outro deve se levantar para fazer alguma coisa. Mas o que precisamos é nos olhar mais como povo, como gente e entender de uma vez por todas que o meu bem-estar e da minha família só vai existir se o outro também estiver em paz. Não tem como correr. De alguma maneira, tudo nos atinge. Por mais que as coisas pareçam distantes, vão nos afetar. Então desejo do fundo do meu coração que cada vez mais a gente se olhe, não sejamos mascarados ou, como dizia a minha avó, não coloquemos panos quentes.

Fazer o bem sem ver a quem

Eu promovo alegria, sorriso, mas sou uma porta aberta a qualquer causa social. Me disponho a ser um outdoor ambulante, se for preciso. Agora, sou embaixadora de dois projetos incríveis: Os Amigos do Bem, no sertão do Nordeste, de restauração familiar com foco na educação, feito em um lugar onde não tinha infraestrutura, energia elétrica e hoje tem escola, trabalho para as famílias e vida para as crianças e o Beleza Escondida, que cuida de mulheres e seus filhos, vítimas de violência doméstica e todo tipo de abuso em seus núcleos familiares. Em 2018, foram registrados 1.173 feminicídios, um aumento de 12% em relação a 2017, então é mais do que necessário refletirmos e tomarmos uma atitude. Estou muito feliz em poder contribuir com essas causas já que vivemos um momento importante e que marcará nossa história daqui pra frente, sabe? Estamos cada vez mais unidas, lutando juntas e cientes do nosso papel. Conseguindo, aos poucos, nos libertar desses pré-conceitos e da nossa cultura machista, tão intrínseca em nós. Por muito tempo, fomos obrigadas a nos esquivar, a aceitar apenas o que nos era colocado, porém hoje temos a força necessária para ir além. Acho que essa sororidade está presente, viva e pulsando dentro de nós.

Sim, me arrependo!

Tenho vários arrependimentos! Mas não sofro, só não faria de novo. Algumas coisas que falei porque não elaborei muito bem na minha cabeça e me expus, por exemplo. E é assim, né? Você faz um monte de coisas bacanas, mas se fizer uma não tão legal, não esquecem… Minha preocupação é só nunca magoar alguém se disser alguma coisa e for mal interpretada. Acho que é bom ser espontâneo, mas é muito melhor refletir antes de falar.

Online

Sou de uma geração anterior a essa em que o celular é parte do corpo, então tenho uma certa dificuldade de sair andando e fazendo vídeo. Eu converso com meus fãs, mas, quando me vejo, já me desconcentrei. Tenho que ir focada, não é aquela coisa, oi, acordei e foi. Ou agora estou comendo não sei o quê. Não sou assim. Sou da fase da transição, do Orkut… Parece uma conexão, mas acho que é mais uma separação do tipo: você é melhor que alguém porque gosta disso, e se você também gostar disso que eu gosto, é bom o suficiente para me merecer. Essa coisa egocêntrica é surreal. Mas é só uma observação de um mundo que se cria, não é real. As redes têm literalmente um monte de filtros e, consequentemente, máscaras. Me interesso por isso por conta do meu trabalho, mas a maioria dos meus momentos é sem o celular.

No fear

Não tenho medo de nada, não. Me falam muito em medo de envelhecer, mas acho bonito as marcas de expressão, me aceito bem. Eu pensava: será que quando eu tiver uns 30 anos vou me estranhar? Só que me cuido, me alimento bem, e sinto que isso retardou certos processos de envelhecimento, mas sou desencanada. Nunca tive uma crise, gosto das minhas marquinhas.

Lado B

Bossa nova! Camisola bem folgada ou camisa bem velha daquelas de supermercado, ultra mega power GG, sem nada, cabelo em pé, dentro de casa o dia inteiro, assistindo série com meus filhos e fazendo nada.

O que quero fazer…

Neste momento, comer. (risos)

O que quero falar…

Que eu adoro pizza!

Claudia por Claudia

Sei lá. Sou muitas coisas. Sou feliz. Sou simples. Sou amor. Simples assim.

 

 

Fotos: Jacques Dequeker

Styling: Yan Acioli

Beleza: Washington Rocha

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