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Capitão de sua Alma

De personalidade inquieta, imaginação fértil e vocabulário que faz lembrar alguns dos grandes mestres da literatura brasileira, Fernando Castro desponta como escritor de prosa e poesia e faz sucesso na Europa

POR Simone Blanes 5 MIN

02 maio

5 Min

Capitão de sua Alma

POR Simone Blanes

	

“Nenhum ser humano é capaz de esconder um segredo. Se a boca cala, falam as pontas dos dedos.” Essa frase de Sigmund Freud abre o recente livro de Fernando Castro, O Homem no Deserto, e diz muito sobre o próprio escritor, que desde a infância extravasava suas emoções no papel. “Lembro-me das aulas de redação em que eu queria mais linhas para escrever”, recorda o poeta, hoje com 35 anos. Talento esse motivado pela mãe, a advogada Margot de Castro, que ainda guarda as redações do filho, e aguçado ao extremo quando ingressou no teatro da Domus Sapientiae, escola em que cursava o Ensino Fundamental, em São Paulo. “Participei de uma peça, Jornal Tall, que foi um sucesso, na qual eu dublava até o Luciano Pavarotti”, sorri. Até que um desentendimento com uma colega o fez sair do grupo. “Me deixou engasgado e montei o meu próprio espetáculo, Desventuras de uma Falência. Tinha 12 anos, escrevi, atuei, dirigi e ganhamos todos os prêmios naquele ano. Foi aí que comecei a me reconhecer como escritor. Do teatro veio o carimbo de que esse era o meu caminho.” Do Ensino Médio, Fernando foi direto para a faculdade de comunicação social, onde iniciou o curso de relações públicas, depois migrando para cinema. “Era bom com as palavras e tinha uma conexão forte com a literatura e a arte. Mas meu pai não queria que eu fosse cineasta. Então, fiz jornalismo e filosofia, mas ele acabou se afastando”, conta, sobre o pai e também advogado Amaro de Araujo Pereira Filho. Nesse meio tempo, porém, Fernando entrou no Indac, curso de teatro profissionalizante, que fez reacender sua paixão pelos palcos, e onde quase apresentou Dom Quixote, a peça que faltava para se formar. Só que o sangue falou mais alto. “Nos primeiros dois anos, tinha aquela coisa da libertação, mas depois passei a sentir a ausência do meu pai. Me retirei do teatro e me matriculei na faculdade de direito”, detalha. Essa, sim, ele não só finalizou na Universidade Estácio de Sá, como gabaritou a prova da OAB – Ordem dos Advogados do Brasil. “Foi aí que ele passou a me respeitar. E eu senti que fechei aquele ciclo. Hoje agradeço aos meus pais pela insistência, já que essa formação é algo importante para minha carreira de escritor.” Que ganhou força, aliás, ao publicar seu primeiro romance Alcateia no Jardim (Editora Giostri). Em seguida, veio O Homem no Deserto, que resolveu segurar um pouco mais por uma decisão que havia tomado: morar na Europa. “Barcelona era meu foco, mas quando conheci Lisboa, me deu um negócio. Tudo fez sentido para mim ali. Eu escrevo em português, tenho a cidadania, então me mudei para lá.” Ele e seu livro pronto, embaixo do braço. “Um dia, estava treinando na academia e me deu um clique. Parei e mandei o original para a Chiado.” Cinco dias depois, recebeu um e-mail de Luís Fonseca Raimundo, editor executivo da editora portuguesa, já com um contrato para assinar. “Fernando traz não só um cenário de esperança, mas também de perseverança no que se refere à literatura contemporânea”, atesta Luís sobre seu pupilo brasileiro, de quem ainda publicou Primeiras Impressões Lisboetas, poesias escritas nos primeiros meses de estadia de Fernando na capital portuguesa – onde mora há dois anos, em frente ao Rio Tejo – e lançadas na 25ª Bienal Internacional do Livro, na capital paulistana. Fora isso, também o convidou para participar do oitavo volume da antologia de poesia portuguesa contemporânea Entre o Sono e o Sonho, do livro 3/4 de um Amor e do compêndio de contos Num dia, Um livro. “Me tornei escritor escrevendo. Não foi algo planejado. Agora, quero é seguir com meus projetos na literatura”, afirma Fernando, que ainda este ano lança o romance Castradores do Arco-Íris, e trabalha em seu próximo livro Diamante do Sol. “Começa dizendo que ‘o amor é a alma do mundo, o diabo está morto. É como se complementasse o que foi feito antes, solidificando. O desejo de amar já está ali, o inimigo é outro”, revela. O que esperar dessa e tantas obras que ainda estão por vir? Para Luís Raimundo, “a literatura nacional está bem entregue nas mãos de escritores como Fernando Castro”. Também é essa a opinião do arquiteto, ex-diretor e atual conselheiro do Museu de Arte de São Paulo (Masp) Luiz Pereira Barretto, que definiu o estilo ousado e envolvente, com um universo cheio de significados e personagens complexos de Fernando, de “castreano”. Pois é: talento é algo nato, e nem Freud explica…

Foto: Romulo Fialdini

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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