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Brutalista…

É a definição da concepção arquitetônica em projetos que destacam formas geométricas e maciças, com colunas e paredes de concreto aparente

POR Roberto Marks 5 MIN

03 maio

5 Min

Brutalista…

POR Roberto Marks

	

Eles estão dispersos pela cidade de São Paulo. São tantos que os paulistanos procuram negligenciá-los. De prédios públicos a sedes de clubes e escolas a estações do metrô, de museus a condomínios de apartamentos, de igrejas a residências, a capital tem um enorme acervo de prédios brutalistas, concepção arquitetônica difundida nas décadas de 1950 a 1970 e que se caracteriza pelas formas geométricas e maciças que destacam colunas e paredes em concreto aparente.

O termo brutalista tem origem e definição controversa, mas existe o consenso de que um dos precursores do conceito foi o arquiteto franco-suíço Charles-Edouard Jeanneret-Gris, o famoso Le Corbusier. Foi ele um dos pioneiros a utilizar o “béton brut” (concreto bruto) na estrutura de prédios no projeto de Unité d’Habitation, após a Segunda Guerra Mundial. Nas fachadas e colunas destacavam-se o concreto aparente e o acabamento rústico, que acabou sendo denominado como Arquitetura Brutalista. Mas essa nomenclatura costuma provocar debates. Para os estudiosos no assunto, não é correta. É apenas um desdobramento, ou vertente, do dinâmico processo de evolução da Arquitetura Moderna, movimento que surgiu no começo do século 20 e procurou romper todos os paradigmas, abominando de maneira incisiva as propostas da arquitetura praticada até então, que privilegiava a ornamentação e detalhes supérfluos nos projetos.

A argumentação até tem fundamentos, já que Le Corbusier foi também um dos precursores da corrente modernista. Para muitos, inclusive, o brutalismo é considerado o último suspiro do moderno, como forma de expressão. A ideia de que a estrutura dos edifícios não devia ficar escondida e que vigas, pilares e outros componentes expostos eram os elementos básicos na beleza estética da obra pode ser considerada como o ápice desse movimento.

É interessante destacar, porém, que muitos arquitetos que desenvolveram projetos dentro dos pressupostos do brutalismo nunca se preocuparam em aceitar o rótulo. Exemplo disso é o eclético arquiteto paranaense radicado em São Paulo, João Batista Vilanova Artigas (1915 – 1985), que, embora tenha diversas obras catalogadas como brutalistas, com destaque para o magnifico prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (Universidade de São Paulo), sempre se considerou um arquiteto modernista. Da mesma forma, o brilhante arquiteto carioca Affonso Eduardo Reidy (1909-1964), que projetou em 1953 a arrojada e elegante sede do MAM – Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro –, considerado o primeiro projeto no qual se adotaram as premissas brutalistas no Brasil, definia-se estruturalista. Por sinal, a instigante solução de pilares em V para suportar a estrutura do prédio é considerada um marco na arquitetura moderna e foi elogiada, inclusive, por Corbusier.

Controvérsias à parte, não se pode deixar de ressaltar o brutalismo como um processo importante na construção moderna e, certamente, o mais radical. Ele também tem relevância na arquitetura brasileira, especialmente em São Paulo, no período em que o conceito se difundiu. Além de edificações práticas e de custo reduzido na época, garantia rapidez. Tamanha proliferação, entretanto, também gerou críticas, já que nem todos os projetos agradaram.

A multiplicação de prédios brutalistas na capital paulista pode ser creditada ao crescimento acelerado da cidade durante as décadas de 1950 a 1970, quando a cidade assumiu o protagonismo que, na primeira metade do século passado, fora do Rio de Janeiro. Nesse contexto destacou-se a chamada “escola paulista”, tendo como principais protagonistas, além de Artigas, o capixaba Paulo Mendes da Rocha e a italiana naturalizada brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), que assinou duas obras consideradas importantes exemplos do conceito na cidade: o Masp – Museu de Arte de São Paulo –, em plena Avenida Paulista, e o centro de cultura e lazer Sesc Pompeia, na Zona Oeste. O prédio do Masp, projetado em 1958 e inaugurado no ano seguinte, é apoiado em quatro pilares e tem um notável vão livre de 74 metros. Durante muitos anos, os pilares foram mantidos com o concreto aparente, seguindo as premissas do brutalismo. Os efeitos do tempo e da poluição, porém, colocaram em risco sua integridade estrutural. Por isso, no começo dos anos 1990, a estrutura que sustenta a construção foi restaurada e pintada com tinta especial, para desgosto da arquiteta. Já o prédio do Sesc Pompeia, obra inaugurada no fim da década de 1970, segue uma proposta radicalmente brutalista, em todos os aspectos, e é considerada uma das mais representativas em todo o mundo.

Outro importante exemplar do brutalismo é o prédio do Tribunal de Contas do Município, na Vila Clementino, inaugurado em 1976. Projeto arrojado do arquiteto Gian Carlo Gasperini, possibilita que a imponente construção também seja apoiada por quatro pilares, só que estes são ocos para possibilitar a circulação nos elevadores e escadas. Além dessas obras majestosas, ainda existem exemplos singelos como a igreja São Bonifácio, na Vila Mariana, obra do arquiteto austríaco radicado no Brasil Hans Broos, e a casa que o arquiteto Ruy Ohtake projetou para sua mãe a artista plástica Tomie Ohtake (1913-2015).

Fotos de Leonardo Finotti.

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