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Bela Gil

ESTRELA NA TV, AUTORA DE LIVROS DE SUCESSO E UMA DAS PERSONAGENS MAIS DESCOLADAS E INTERESSANTES DO PAÍS, BELA GIL APENAS FAZ O QUE GOSTA E VIVE COMO PENSA: “COMER É UM ATO POLÍTICO”

POR Otávio Rodrigues 5 MIN

08 out

5 Min

Bela Gil

POR Otávio Rodrigues

	

“Receita 1 – Suspiros parisienses. Tome uma jovem de 17 anos, ainda no segundo ano do Ensino Médio, e a coloque numa viagem à Europa com os pais. Adicione um encontro com o ex-namorado, que está estudando na França. Deixe ferver. No momento em que a moça disser que não quer voltar ao Rio, que prefere ficar em Paris, acrescente um “tudo bem” dos pais. E pronto. (Bem, pelo menos, deu certo com  Bela Gil.)
Nascida em Salvador, onde viveu até os 2 anos, criada no Rio, ela morou também em Nova York, Roma — e acaba de chegar a São Paulo, aos 31 anos, de mala e caçarolas. “Estou adorando o metrô!” O novo endereço tem espaço de sobra para o casal e os dois filhos — Flor, 10 anos, e Nino, 3 — e parece ainda maior com a ausência de alguns móveis. Pilhas de livros estão perfiladas na sala de jantar, entre uma e outra caixa por abrir. Há um retrato de Luiz Melodia na parede do hall, dois sofás na sala de estar, uma arte Oaxaca com selo de autenticidade apoiada sobre uma cadeira e um violão num canto. “É do vovô”, vai o Nino esclarecendo. Mamãe garante não ter nascido para a música, como os irmãos e irmãs. “Falta de talento, simplesmente. Tentei cantar, tentei violão — é impossível. Não rola nem no Parabéns a Você”. Gil e Flora sempre deram liberdade aos filhos. “Eles deixaram cada um ser o que queria ser. Isso foi importante para eu entender minha essência, minha verdade, para encontrar meu caminho.” Flora reforça a ideia, enquanto lambe as crias: “A Bela nunca deu trabalho, sempre teve senso, foi responsável — como todos os filhos de Gil (os dele e os meus com ele). Todos têm esse limite próprio, que eles mesmos se dão e nunca ultrapasssam. Não é a gente que dá limite.”
RECEITA 2 – Sonhos de maçã. Junte em Nova York um casal apaixonado — ela grávida — e cubra com entusiasmo e determinação. Deixe os dois cozinhando com estudos, novas ideias de vida e possíveis vocações. Vá acrescentando amigos ao redor e pronto. Mas precisa dar liga, segundo Bela Gil.
“Meu marido não é apegado a este ou aquele lugar, ele também gosta de explorar o mundo. Como casal a gente se deu bem.” Bela conta que fizeram de tudo nos quase dez anos em que ficaram nos Estados Unidos. Ele foi garçom, trabalhou na Osklen, foi gerente no escritório do criativo Giovanni Bianco. “E eu passei a cozinhar em casa e me apaixonei. Fiz um curso de culinária natural e comecei a trabalhar como private chef: ia na casa das pessoas, preparava os pratos para uma semana e deixava no freezer. Eu amava fazer isso! Daí veio a faculdade de nutrição e vários outros cursos — não parei mais.” Ela conta que foi uma surpresa. “Sempre gostei muito de comer, mas cozinhar não era algo que vinha naturalmente. José, meu irmão mais novo, se não tinha coisas que ele gostava, como pudim ou estrogonofe, ele ia na cozinha fazer. Eu não tinha essa aptidão. Fui ganhando, descobrindo.” Aos poucos, o apartamento em Nova York se transformou num laboratório, com a agenda repleta de consultas nutricionais e aulas de culinária. “Eu vivia aquilo que eu falava, que eu cozinhava, e as pessoas perceberam minha mudança, minha alegria, minha atitude diante da ideia de poder transformar a gente e o mundo por meio da alimentação.” A amiga Dandara Guerra foi quem teve a ideia de filmar Bela na cozinha e mostrar a uma emissora de TV. “Eu achava que não tinha a ver comigo, sempre fui muito introvertida, tímida… Mas gostaram, me chamaram e, no primeiro programa, quando ligaram a câmera, eu saí fazendo. Se você sabe o que está falando, se tem confiança, pode falar com uma pessoa ou com mil e se sentirá confortável do mesmo jeito. Quando você sabe, você faz.”
RECEITA 3 – Mistura à moda da casa. Unte um lar com amor, acrescente doses de alegria e bagunça, finalmente misture um pai interessado em equilíbrio mente-espírito, alimentação saudável e conhecimentos alternativos, e uma avó muito hábil no preparo das calóricas delícias da mesa italiana.
“Quando eu era adolescente, ganhei do meu pai o livro Autobiografia de um Iogue, do Yogananda. É muito bom, me transformou! Comecei a fazer ioga e isso acabou modificando minha relação com a comida. Meu corpo foi naturalmente rejeitando o açúcar, os alimentos processados, a carne… Percebi uma mudança muito forte no corpo, na mente, no jeito de ser. Ora, eu pensava, se a comida faz isso comigo… Como e por que acontece? Foi quando despertei, pois queria entender essa alquimia, como ela influencia o que se é como indivíduo, como pessoa. Porque a gente é o que a gente come, mesmo.” Na casa dos pais nunca faltou arroz integral, caldinho de arroz e outras maravilhas da culinária macrobiótica, da qual Gil é adepto desde os anos 1970. Mas também havia arroz branco e feijão-preto, pratos da cozinha baiana, sem falar nos de tradição italiana — na qual reinava e ainda reina a matriarca, Vó Nair, mãe de Flora. “Ela vinha em casa e fazia altas macarronadas, lasanha, capeletti… E a gente participava da feitura! Não era só o comer, tinha esse ritual. E eu levava como brincadeira, adorava a bagunça, mas não sabia quebrar um ovo nem imaginava que um dia viria a trabalhar com cozinha.” Recapitulando agora, Bela percebe com clareza para que serviram esses inputs familiares. “Quando me descobri cozinheira, entendi como esses anos todos com minha avó foram importantes. Quando minha curiosidade veio à tona e comecei a estudar macrobiótica e ayurveda, nossa… Tudo o que meu pai falava fez sentido — era como se eu estivesse voltando para casa. Estava tudo ali, já apontando o caminho. Acho que dá um certo orgulho ao meu pai ter uma filha seguindo esse outro lado muito forte dele, que é o da espiritualidade, da alimentação saudável, da qualidade de vida. A gente consegue trocar muito.”
RECEITA 4 – Entradas picantes. Tome uma mulher jovem e dona de seu nariz, capaz de provocar com ideias descoladas sobre alimentação, saúde e sustentabilidade. Junte às necessidades e expectativas de um público decidido a mudar algo na própria vida e no mundo. Deixe descansando por alguns instantes enquanto imagina até onde isso pode levar…
Bela Gil já escreveu cinco livros — quatro de culinária, um sobre maternidade. “Uma das coisas que mais me inspiram é compartilhar aquilo que gosto e sei, poder agregar algo à vida das pessoas, transformar para melhor.” Seu estilo de vida, revelado nas receitas e nas ideias sobre a saúde integral, tem servido como modelo para muita gente, o que, segundo ela, pede uma inclinação mais política. “Estou me interessando em ter uma militância, um ativismo maior. Falo do ativismo de você, com as ferramentas que tem, facilitar e transformar a vida das pessoas por meio de políticas públicas. Não sei se pretendo entrar para a política, propriamente, mas tenho parcerias com ONGs, com instituições, faço parte de conselhos, estou associada a vários projetos… Então, posso atuar politicamente. Viver, assim como comer, é um ato político.” Quando está defendendo uma ideia, Bela às vezes para e murmura algo, enquanto levanta os olhos e fica procurando as palavras certas. Igual ao pai. “Eu acredito em agricultura mais sustentável, saudável, orgânica e sem veneno, eu acredito na agroecologia. Quando consumo, quando compro, apoio esses agricultores — assim, estou militando. Você também, quando fala em sustentabilidade, quando tenta reduzir os plásticos na sua casa ou utilizar os produtos menos nocivos ao meio ambiente, você está militando.” Para ela, a maneira como nos alimentamos pode mudar o mundo. “A alimentação é a grande ferramenta de transformação, não só pessoal, mental e física, mas transformação econômica, social, ambiental e cultural. Um dos efeitos colaterais do desenvolvimento industrial é o distanciamento da natureza, na medida em que nos colocamos acima dela — e eis aí um grande problema, pois somos parte da natureza. Mas ao nos reaproximarmos dela, essa relação muda e a gente começa a prestar atenção no mundo ao redor. Sempre pergunto: de onde vem nossa comida? ‘Ah, vem do supermercado, da feira…’ Aí alguém diz: ‘Da terra…’, que é a resposta que estou procurando. A gente precisa ter um cuidado maior com a terra.”
RECEITA 5 – Coração ao molho doce. Misture ioga, ritos tibetanos, jejuns periódicos, aprenda sobre alimentação natural, curse nutrição, faça um mestrado e leia tudo que lhe cair nas mãos a respeito desses assuntos. Serve toda a família.
Bela conta que Flora pediu ajuda quando entrou na menopausa. “Dei três dicas: corta farinha, corta açúcar e… Acho que foram só essas duas dicas. É que ela também parou de fumar e, com tudo isso, acabou mudando completamente, ficou mais bonita, emagreceu.” Flora lembra bem qual foi a terceira dica: “Vinho tinto orgânico. Ela me falou para cortar açúcar, farinha branca e incluir uma taça de vinho quando sentisse muita falta de doce.” Bela diz que com os irmãos e irmãs não é diferente. “Se o filho do meu irmão está passando mal, ‘Bela, o que faço? O que acha que eu dou…?’ Tenho mais esse papel de médico da família do que de chef. Até porque, na cozinha, não dá para competir: todo mundo prefere a macarronada da minha avó.” Em casa, com o marido e as crianças, ela diz que não tem carne, nem frango, nem peixe. “Somos vegetarianos.” Mas libera quando está fora — “em restaurante, na casa da avó, aí come o que quer”. Já a ioga saiu da rotina. “Fiz dez anos de ashtanga yoga, mas tive problemas no joelho, dei uma parada. Aí, há quase dez anos também, descobri os cinco ritos tibetanos, que pratico em casa ou onde estiver. Quando viajo, não levo nem tapetinho nem nada, faço em qualquer lugar.” Bela Gil teria nutrido a conversa por mais tempo, mas o início da noite pareceu ter acionado o modo “queremos mamãe” em Flor e Nino, que devagarinho tomaram o sofá e armaram um justo fuzuê. Só dava tempo de uma receita para o futuro. “Preciso falar mais de amor, estou sentindo isso. Preciso mudar — não o discurso, mas falar muito mais do coração.” Pronto.

Fotos: Miro

 

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