TOP Magazine

Bacurau

Também sabemos ser violentos: a peleja do povo de Bacurau contra os caçadores de gente americanos

POR Walter de Sousa com exclusividade para a TOP Magazine 3 MIN

27 ago

3 Min

Bacurau

POR Walter de Sousa com exclusividade para a TOP Magazine

	

Bacurau sumiu do Google Maps. Todos os sinais foram interceptados para isolar a cidade do interior pernambucano. Um grupo de americanos negociou com os poderes locais para que pudesse, naqueles confins, praticar seu esporte preferido: matar. O sumiço da cidadezinha, que fica no meio do sertão, coincide com a morte de dona Carmelita (participação da cirandeira Lia de Itamaracá), aos 94 anos, matriarca do lugarejo. A gangue dos gringos vem munida de alta tecnologia de espionagem, o que inclui um drone no formato de disco voador, e de muito calibre. Se preparam para caçar.

Bacurau é o nome de um pássaro noturno, “muito brabo”, como explica uma das moradoras da cidadezinha. Aliás, se trata de microcosmo peculiar, trancado em seus segredos, e que poderia até ser vizinha à cidade de Pitombas, do filme Cine Holliúdy, comédia que virou série de televisão exibida pela Rede Globo. É de lá, por exemplo, o procurado bandido Lunga (Silvero Pereira), a médica alcoólatra Domingas (Sônia Braga), o ex-matador Pacote (Thomas Aquino), o professor Plínio (Wilson Rabelo) e Teresa (Bárbara Colen), a retirante que acaba de retornar à cidade. Deles depende a resistência.

O terceiro filme de Kléber Mendonça Filho, este em co-direção com Juliano Dornelles, sai do cenário do Recife, de O Som ao Redor e Aquarius, para contar uma história sobre a violência no semiárido nordestino. A mesma violência tolerada pelo público quando justifica as sagas policiais americanas, mas que é criticada quando o cenário é brasileiro. E que, por sua vez, está tão latente na atualidade, expressa nas redes sociais digitais, na política, nas reuniões de família, nos noticiários. Uma violência que permeia a história do país, e que emerge num contexto de completa desesperança.

O gênero a que se vincula o filme, que conta também com a participação de elenco estrangeiro, entre eles Udo Kier (que atuou em Ninfomaníaca e em Melancolia, ambos dirigidos por Lars von Trier), já foi definido como faroeste nordestino, terror gore e ficção científica distópica. No entanto, ele se constrói com imagens impactantes, como a cena inicial, em que um caminhão de caixões funerários está tombado numa estrada após ter atropelado um motoqueiro. Foi essa narrativa que conquistou o Prêmio do Júri do Festival de Cannes (França) e o de Melhor Filme no Festival Internacional de Cinema de Munique (Alemanha). Outro destaque é a trilha musical, sempre esmerada nos filmes de Kléber Albuquerque Filho, e que conta com a clássica Objeto Não-Identificado (Caetano Veloso), com Gal Costa; e Réquiem para Matraga, de Geraldo Vandré, composta originalmente para a trilha do filme A hora e a vez de Augusto Matraga (1965), dirigido por Roberto Santos, baseado no conto de Guimarães Rosa. O que liga Matraga a Bacurau é justamente a violência, a comandar o destino de ambos.

 

Walter de Sousa

 

Bacurau

Direção: Kléber Mendonça Filho e Juliano Dornelles

Elenco: Sonia Braga, Lia de Itamaracá, Udo Kier, Silvero Pereira, Bárbara Colen.

Estreia em 29 de agosto.

 

Foto:

Victor Jucá

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO