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Intolerância religiosa

Como uma igreja evangélica tentou censurar um livro e perseguiu o autor que revelou o que acontece lá dentro

POR Marília Aguena 3 MIN

09 maio

3 Min

Intolerância religiosa

POR Marília Aguena

	

Quando Eduardo Meinberg Albuquerque Maranhão Filho resolveu escrever um livro sobre a igreja Bola de Neve, não imaginou que teria tantos problemas. A obra intitulada A Grande Onda Vai Te Pegar: Marketing, Espetáculo e Ciberespaço na Bola de Neve Church sofreu tentativa de censura e o autor foi até ameaçado. “A igreja enviou um advogado, acompanhado de dois rapazes que aparentavam ser seguranças, à porta do anfiteatro da Casa de Cultura Japonesa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para me coagirem a não lançar o livro. Me senti bastante intimidado. Ele colocou o dedo próximo ao meu rosto e disse que se eu lançasse o livro teria problemas. Mas lancei mesmo assim.”

No momento, Eduardo achou que o advogado se referia a obstáculos jurídicos, mas depois soube que a igreja tinha perdido a ação e o agravo de instrumento na Justiça. A partir daí, não teve dúvidas de que os infortúnios poderiam ser de outra ordem. Por um bom tempo, só saiu de casa acompanhado. A ironia foi grande: o livro foi intolerado justamente em um evento sobre intolerância religiosa. “Tive a certeza de que não era exagero dizer que o discurso da igreja é autoritário e pouco aberto ao diálogo”, conta.

Passado o pior, o autor ainda toma alguns cuidados. “Tenho amigos que frequentam a instituição e que, para a segurança deles, não estão em minhas redes sociais públicas”. Essas mesmas pessoas relataram que em cultos e reuniões de grupos já foi dito que Eduardo é o anticristo e adversário da igreja, e que seu livro é a Bíblia Negra do Satanismo.

O tema é assunto de pesquisa de Eduardo, que é presidente da Associação Brasileira de História das Religiões, pós-doutorado em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), pós-doutorado em História (UFSC) e doutorado em História Social pela Universidade de São Paulo (USP). No passado, ele chegou a frequentar a Bola de Neve, primeiro por curiosidade, depois por considerar o tema interessante para seus estudos.

Mas vamos ao começo. Por que uma igreja que tem como foco o público jovem com um alto poder aquisitivo, com uma pegada moderna e que prega a liberdade, estaria se rendendo à censura, prática digna da ditadura militar? “Provavelmente por causa do conservadorismo da igreja em relação a questões envolvendo gênero e sexualidade. Mas eles já tinham lido pelo menos um artigo meu, o Nós Somos a Dobradiça da Porta, em que comento sobre o ideal evangélico da mulher como ‘costela do homem’, ou seja, submissa. Não era desejável que alguém mostrasse que, por trás da fala derretida da Bola de Neve, aparentemente flexível e contemporânea, há um discurso congelado, autoritário e conservador, como em grande parte das igrejas evangélicas, aliás”.

E a coisa piora: há até a interferência de pastores da igreja na escolha dos parceiros dos fiéis. Nas células, há uma “cartilha não escrita” sobre quais posições sexuais são permitidas. E, claro, desde que o ato seja praticado apenas entre pessoas de sexos diferentes. Ou seja, mais uma forma de manipular seus frequentadores. (Procurada, a igreja não se manifestou até o fechamento desta edição.)

Como estudioso das religiões brasileiras, Eduardo consegue fazer um raio x sobre a questão da tolerância dentro de instituições que têm como discurso aceitação e acolhimento. As chamadas igrejas evangélicas inclusivas têm como público principal os homossexuais e pessoas transgêneras. A primeira assim, em São Paulo, é a Acalanto, fundada em 2002. “Em um culto de 2012, a pastora Lanna Holder disse: ‘Irmãos, se saem do culto e vão para a Vieira de Carvalho (avenida paulistana célebre por reunir o público GLBT) tomar cerveja e ficar na ‘pegação’, vocês estão no pecado, e uma igreja que diz que podem fazer isso não é de Cristo.” Ou seja, a inclusão é até a página dois. “De modo geral, ainda se costuma repudiar a homossexualidade e transgeneridade. Sem falar nas missões evangélicas que pregam a ‘cura’ dessas pessoas”, explica o docente.

 

“Jesus me ama até no dark room”

Engana-se quem pensa que toda igreja evangélica apenas proíbe ou impõe. Como presidente da Associação Brasileira de História das Religiões, Eduardo já viu de tudo, e por isso é o tema de seu doutorado. Há igrejas, por exemplo, com uma concepção tão diferente que muita gente jamais pensou existir.

A Comunidade Metropolitana é uma delas. “Em um culto de 2011, o diácono Dário de Souza narrou: ‘Amados, depois que eu terminar essa pregação e acabar o culto, vou me jogar na Vieira de Carvalho e ir para a pegação mesmo. Sim, porque Jesus me ama até no dark room”, relata Eduardo. Dark room é o nome dado a salas escuras de algumas baladas gays, onde as pessoas praticam sexo. A irmã de Dário, Josi de Souza, também é líder da igreja e completou: “Jesus me ama não só no dark room como me ama quando faço programa”. Josi é líder da igreja inclusiva, travesti e garota de programa.

O pastor local, reverendo Cristiano Valério explica: “Aqui nós acolhemos a todos, trans, gay, prostituta, que podem ser líderes da igreja. O que importa é o coração ligado com Deus”. Quando perguntado se lá é aceita gente promíscua, ele responde: “Aqui entendemos essas pessoas fazem mais sexo que o invejoso, e inveja é pecado”. Ou seja, a perspectiva sobre sexualidade é bem mais flexível. Em relação a gênero também, visto que uma de suas pastoras, Alexya Salvador, é uma mulher trans e mãe adotiva de uma menina trans.

Para Eduardo, é importante notar exceções como a da ICM para que não entendamos o universo evangélico como algo homogêneo. Há alas progressistas e que não se sentem representadas pela Bancada da Bíblia e por pastores reacionários como Silas Malafaia e Marco Antônio Feliciano, assim como existem católicos que não compactuam com políticos extremistas que se declaram católicos como Jair Bolsonaro.

Ele ainda acrescenta que há no catolicismo movimentos como as Católicas pelo Direito de Decidir, que defendem o aborto como uma escolha pessoal da mulher; e as Feministas Cristãs, que reúnem mulheres católicas e evangélicas. No cosmo evangélico tem as Evangélicas pela Igualdade de Gênero, o movimento Jesus Cura a Homofobia (e não a homossexualidade), os Pastores e Pastoras Contra a Redução da Maioria Penal e a Favor do Desarmamento.

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