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01 set

As roupas de Alexandre

Em parceria com o marido Fábio Souza, Alexandre Herchcovitch cria para a marca À la Garçonne

POR Antonia Petta 4 MIN

01 set

4 Min

As roupas de Alexandre

POR Antonia Petta

	

O fio de ouro da maior pureza e a seda mais fina tecem as roupas de grandes labels da indústria fashion brasileira, mas como no conto “A Roupa Nova do Imperador” (1837), de Hans Christian Andersen, muito dessa moda não se vê. É de entender, portanto, que os seguidores da criação original de moda tenham se sentido órfãos quando, em fevereiro passado, após 23 anos, se anunciava a saída de Alexandre Herchcovitch da marca que leva seu nome. A sensação de desamparo, no entanto, foi breve. Já na edição de verão 2017 do São Paulo Fashion Week, o estilista fez seu retorno. Ou melhor, deu continuidade a sua trajetória. “As pessoas precisam colocar nomes nas coisas. Eu não recomecei – continuei em outro lugar”, diz Alexandre.

Do crash criativo e afetivo com o marido, Fábio Souza, saiu uma coleção completa, que riscou a passarela sob a etiqueta À La Garçonne, a mesma do antiquário fundado por Fábio, em 2009. Uma oficina foi montada no apartamento do casal em Higienópolis, onde duas salas passaram a abrigar manequins, uma mesa de corte e cinco máquinas de costura para entregar, em cerca de 40 dias, uma das coleções mais aplaudidas da semana de moda paulistana. “Agora tenho ao meu lado alguém que acredita nas minhas ideias e me deixa livre para executá-las”, afirma o estilista, que não chegou a um acordo de renovação de contrato com a holding InBrands no início do ano. O grupo ainda não divulgou novos planos para a marca Herchcovitch; Alexandre. “E eu nunca me peguei preocupado com isso”, confessa, direto de seu refúgio em Gonçalves, no estado de Minas Gerais.

Cravada nas montanhas da Serra da Mantiqueira, a cidade mineira tem a típica dinâmica interiorana na qual a movimentação acontece nas ruas que rodeiam uma igreja matriz, os restaurantes de comida caseira soltam fumaça do forno a lenha, a música entoada é a da moda de viola e as casinhas são de madeira em tons claros. Exceto a de Alexandre, que é preta, do telhado às paredes, do lado de fora. Afinal de contas, estamos falando do estilista cujo desfile de formatura teve Márcia Pantera vestindo look com a imagem de uma cruz invertida, deixando rastro vermelho-sangue pela passarela. Como só poderia ser, a decoração é algo à parte, com objetos de ferro da virada do século, tapetes antigos e estantes com gradil de estética industrial. Sofás infláveis que remetem ao estilo chesterfield com capitonê completam o ambiente, que tem ainda patinetes e brinquedos espalhados pelo deck externo de madeira.

É que por ali as prioridades são outras. “Fazemos o mínimo de tarefas possível. Acordamos, comemos, brincamos, dormimos, brincamos de novo, dormimos de novo. Só isso”, conta Alexandre, que acolheu com Fábio os filhos Fernando, 3 anos, e Ben, de 2, à família Souza-Herchcovitch (em 2014 e 2015, respectivamente). “Somos assim. Com eles tudo nos dá muito prazer. Temos sorte de tê-los por perto – educar é uma tarefa para os fortes, que requer muito amor e paciência, mas, no fim, são eles quem nos ensinam mais”.

De volta à capital paulista, um dia típico na rotina de Alexandre abraça todos os recentes turning points de sua vida. “Acordo e tiro meus filhos da cama, troco a roupa deles e vamos todos tomar café da manhã, preparado por mim”, diz. “Não tenho escritório fixo: por enquanto, trabalho na loja À La Garçonne ou em casa, mas pretendemos sair logo de lá, pois a colaboração com a marca continua e o espaço já está ficando pequeno. No fim do dia, me revezo com Fábio para buscar nossos filhos na escola e sempre janto com minha família”, conta ele, mostrando que sua própria narrativa contém mais realidade que conto de fadas – mas nem por isso deixa de encantar.

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