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Açucar

Filme pernambucano relê as relações entre Casa-Grande e senzala e constrói microcosmo dos dilemas socioculturais da atualidade

POR Walter de Sousa 3 MIN

30 jan

3 Min

Açucar

POR Walter de Sousa

	

A Zona da Mata pernambucana é o cenário do estudo antropológico de Gilberto Freyre, Casa-Grande & Senzala, publicado em 1933, e que analisa a formação sociocultural brasileira. É nessa mesma região que se encontra o Engenho Vanderlei, onde se passa a história de Açúcar, filme dirigido pela dupla também pernambucana Renata Pinheiro e Sérgio Oliveira. A chegada de Maria Bethânia (vivida pela bela e expressiva Maeve Jinkins), que vai ocupar uma decadente Casa Grande que mantém intactos móveis, antigas fotografias e bibelôs de louça, acende um confronto com aqueles que vivem no entorno. São negros descendentes dos antigos escravos que, em contrapartida, não têm interesse em manter de pé as ruínas da senzala. Mesmo assim, a relação é inevitável e continua subalterna. Zé (José Maria Alves) preside a ONG Cabo Verde, dedicada a resgatar a expressão cultural dos negros, que se mantém na região sem a posse da terra. Seu interesse maior é ampliar a atuação da entidade com o apoio de dinheiro estrangeiro. É conhecido de Bethânia, mas manda Alessandra (Dandara de Morais) aceitar o trabalho de faxineira na propriedade para saber “mais sobre o inimigo”. Assim, a tensão está instalada, movida pelo peso de uma tradição adormecida historicamente, mas latente. Aos poucos o conflito pessoal da personagem principal se evidencia. Com traços evidentes de afro descendência, Bethânia oscila entre apreciar a herança material da Casa Grande e alisar os seus cabelos. Faz contraponto às suas dúvidas a chegada de sua madrinha, Branca, vinda do Sudeste, que agrega sua visão urbana ao dilema vivido por Bethânia.  Com recursos da literatura de realismo fantástico, os diretores atualizam o confronto da miscigenação. Embora seja hoje celebrada como característica no brasileiro, ela não se fez em festa, mas a custa de submissões e rejeições, de conflito e aceitação. Quando esse processo de construção de identidade se encontra numa curva fechada, como na atualidade, a necessidade de sua conclusão se torna evidente a partir da reflexão proposta pela narrativa do filme.

Açúcar
Direção: Renata Pinheiro e Sergio Oliveira
Elenco: Maeve Jinkings, Magali Biff, Dandara de Morais, Zé Maria Alves.
Estreia: 30/1

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