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12 dez

A gente não quer só dinheiro…

A gente quer dinheiro e felicidade. Afinal, o que querem os jovens de hoje? No trabalho, espaços lúdicos e ações de integração podem ser um ótimo negócio para as empresas já que incentivam e impulsionam a criatividade...

POR Simone Blanes e Erisson Rosati 3 MIN

12 dez

3 Min

A gente não quer só dinheiro…

POR Simone Blanes e Erisson Rosati

	

 

Já foi o tempo em que a ordem era trabalhar em lugares fechados e escritórios sem graça. Agora, a realidade é outra! Graças à tecnologia e à mudança no estilo de vida, as empresas precisaram evoluir, em especial, por conta da entrada de uma nova geração no mercado profissional, que ajudou a alterar a postura dentro do ambiente de trabalho e obrigou os empregadores a criarem novas estratégias. Daí, surge esse novo modelo: a aposta em espaços lúdicos com o intuito de enxergar as pessoas em suas particularidades e, assim, impulsionar a criatividade e aumentar a produtividade.

Parte desta mudança está na mão dos millennials, também conhecidos como geração Y. São jovens que nasceram no fim dos anos 80, já imersos na cultura da tecnologia e internet, e que mudaram a forma de ver o mundo e acessar a informação. “Por viver em uma era de hiperconectividade, eles precisam estar constantemente estimulados. Novas interações são essenciais para manter o seu foco e interesse”, explica o psicólogo Roberto Debski, da Clínica Ser Integral. Por isso, é melhor esquecer escritórios padronizados, chatos e cheios de regras. O jovem busca por locais de trabalho mais flexíveis, coloridos e com astral urbano, onde existe maior contato com os colegas e desafios diários. “Ele quer um lugar onde possa expressar sua criatividade e talentos ao máximo”, completa.

Não pense, porém, que o desejo por ambientes inovadores é uma exclusividade da galera de 20 anos. Marcelo Pignatari, por exemplo, tem 37 e trabalha como redator em uma das maiores agências de publicidade do país, a AlmapBBDO. Apaixonado por super-heróis, ele levou alguns de seus bonecos para enfeitar sua mesa de trabalho e hoje tem até um perfil no Instagram dedicada a ela: @namesadotrampo, em que cria posts engraçados e criativos, com temas atuais, utilizando-se de seus personagens. “Comecei por acaso, como uma maneira de brincar com a coleção que só crescia. Virou uma espécie de terapia para mim. É como um aquecimento cerebral, um tempo só meu, em que posso desestressar e seguir para o trabalho”, diz. A conta, é claro, virou um sucesso entre os colegas da agência. “Reservo uns 15 minutos para pensar em uma imagem e colocar no ar. É ótimo ver a resposta das pessoas a cada nova interação.”

Justamente pela criatividade ser a principal ferramenta das agências de publicidade, elas foram as pioneiras nessa tendência em ambientes originais que incentivam os processos imaginativos. E vão além… Na própria AlmapBBDO, por exemplo, todas as segundas-feiras, é exibido um documentário em uma sessão de cinema montada na agência, com direito a sanduíches, quiches e saladas, e uma variedade bem ampla de temas que vão de nouvelle vague ao funk ostentação. Quando sobra um tempo, ainda rola um bate-papo sobre o filme. Também há o projeto Papo-Cabeça, série de conversas com personalidades para estimular novas ideias, iniciativas para celebrar datas especiais e convênio com academias. O objetivo: deixar as pessoas mais felizes, para, assim, produzirem mais e melhor.

“É comum que grandes corporações empreguem muito dinheiro em projetos de interação. Hoje, no entanto, essas novidades já estão chegando nas pequenas e médias empresas”, atesta Sérgio Dias, economista e consultor do Sebrae. A Natura, por exemplo, é uma que investe pesado nisso. É só ver sua nova sede, inaugurada em agosto de 2017, com ambientes conectados e transparentes, que integram as equipes e a natureza. Fora as salas para atividades que exigem concentração ou privacidade, auditório, berçário, Espaço Saúde e Espaço Bem-Estar. Outro bom exemplo é a rede de óticas Carol, que, com 5 mil colaboradores, criou uma sala especial com biblioteca, mesa de sinuca, frigobar, TV, sofás e puffs em sua matriz. Um diferencial para a analista de marketing Beatriz Garcia, de 21 anos. “Claro que salário é importante, mas ter um lugar gostoso no escritório compensa muita coisa. Virou um lugar nosso, onde podemos relaxar, descansar e voltar ao trabalho com mais disposição”, diz. Segundo Raquel Pirola, diretora de inovação e marketing das Óticas Carol, a sala foi inspirada no Google, gigante da tecnologia referência nessa tendência lúdica. “É uma celebração aos nossos colaboradores. Iniciativas que buscam deixar o trabalho um pouco mais inspirador, divertido e prazeroso.”

Mi casa su casa
A regra de criar espaços amigáveis parte de uma necessidade imposta pelas próprias pessoas. Com jornadas de trabalho mais exaustivas e múltiplas tarefas, sentem a necessidade de locais mais agradáveis e que facilitem suas vidas. “Hoje os limites entre vida profissional e pessoal estão mais elásticos. É impossível separar completamente uma da outra”, afirma Debski.

Com uma rotina mais atribulada e a quantidade de informação recebida diariamente, a empresa acaba se tornando uma continuação de casa. É assim que a analista de mídias sociais Marina Elaine Hortelan, por exemplo, vê seu dia a dia. Aos 27 anos, ela trabalha na Viva Decora, uma plataforma online de produtos e inspirações voltados para arquitetos e decoradores. “Nosso trabalho é muito focado no ambiente virtual. Estamos o tempo todo em busca de novidades e qualquer coisa diferente que eu vejo na rua pode servir de inspiração”, diz. Daí ser essencial que a empresa ajude seus funcionários a relaxar. A sede, localizada na Rua Bela Cintra, em São Paulo, conta com uma sala com sofás, geladeira com cervejas e até videogame. O espaço faz tanto sucesso que recebe o toque dos próprios empregados, que trazem livros e revistas de casa. “Queremos oferecer momentos de lazer. Como temos muitos jovens trabalhando aqui, a sala acaba se tornando um espaço de convivência e troca de ideias”, explica o diretor da Viva Decora, Diego Simon, de 36 anos. “A gente conversa muito para entender o que eles querem. Mas é preciso deixar claro que existem metas de trabalho a serem cumpridas.”

Aos 44 anos, sendo 11 deles como diretor de criação da AlmapBBDO, Marco Giannelli enfatiza que a entrega do trabalho é mais importante do que qualquer outro fator. “Trabalhamos com criatividade. Pausas e atividades lúdicas são necessárias para incentivar um insight, que pode ser o começo de uma grande ideia. Mas não adianta nada o funcionário cumprir horários e se vestir todo certinho se a entrega final não for boa”, ressalta. “Existe um nível alto de cobrança de clientes e muitas coisas a serem feitas. Por isso, ter uma válvula de escape deixa o trabalho mais leve e permite que a equipe renda muito mais.”

Ou seja, apesar de festejados pelos funcionários, em especial os jovens, é importante salientar que esses estímulos devem ser usados com cautela. Lembrar que esses espaços são parte do ambiente corporativo, e o comportamento, as atitudes e as interações estão sendo analisadas pelos colegas. Outro ponto importante é aprender a estabelecer limites. Para Simon, da Viva Decora, a maior parte dos colaboradores sabe respeitar a liberdade que possui. “Não existem regras explícitas, mas contamos com o bom senso das pessoas. Em geral, todos acabam entrando em harmonia e usando os incentivos sem exageros.” No caso de alguém que passe a extrapolar ou atrapalhar a equipe, o executivo defende que seja afastado. “Prefiro tirar o funcionário problema a acabar com os benefícios de todo um time que se utiliza disso de forma correta.”

Marco Gianelli concorda: “Claro que um cara que exagera, usa roupas desleixadas demais ou que atrasa sempre não é legal. Mas o importante é manter o foco em ter seu serviço entregue e bem-feito”, afirma. Todos concordam que, mesmo as empresas pregando uma maior flexibilidade, o local de trabalho ainda precisa de regras. “É uma troca”, ressalta o psicólogo Roberto Debski. “Essas facilidades são estímulos para que as pessoas fiquem mais produtivas.”
Em suma, sejam os mais jovens ou mesmo aqueles que já possuem anos de carreira, o fato é que a satisfação no trabalho vai além de apenas um bom salário. O novo perfil de profissional espera das empresas uma preocupação com o fator humano e ambientes que propiciem o desenvolvimento pessoal. Afinal de contas, não é de hoje que pequenos detalhes podem gerar muitas boas ideias e excelentes resultados.

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