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Novo Romance

Marcio Aquiles lança livro O Amor e Outras Figuras de Linguagem

POR Redação 2 MIN

27 jun

2 Min

Novo Romance

POR Redação

	

O escritor, crítico de teatro, mestre e bacharel em estudo literários Marcio Aquiles está com trabalho no forno. O autor dos livros “Tipologias Ficcionais e Linguísticas”, “Monólogos de um Reacionário”, “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário” e “Delírios Metapoéticos Neodadaístas” lança no próximo mês o romance “O Amor e Outras Figuras de Linguagem”.

Sinopse:
Num futuro próximo, São Paulo se tornou a Capital do país. Novas espécies de cogumelos alucinógenos começam a brotar na cidade. O Instituto de Biologia Evolutiva promove pesquisas com substâncias psicoativas não catalogadas. Um personagem sem identidade física se perde dentro do romance. Um outro sofre com distúrbios cognitivos. Três jovens libertinos constroem uma relação de amor e metáforas selvagens.

O lançamento acontece no dia 23 de julho, na Casa das Rosas (Avenida Paulista, 37), das 15h às 18h. Editora Giostri.

 

Veja um trecho inédito do livro:

Trecho inédito do romance “O Amor e Outras Figuras de Linguagem”, de Marcio Aquiles, a ser publicado em julho pela editora Giostri.

O senso de ser ridículo me desperta de um elã monocromático ao qual fiquei preso durante a agonia de uma guerra da qual não pedi para fazer parte. Todas as focas que invadiram meu quarto foram sufocadas pela atmosfera febril e pelo cheiro de ostra temperada com pequi que tomou conta de meu território desde que voltei da fazenda da minha amante solitária que gostava de observar os camelos subtropicais, hoje em dia cansados de tantas peregrinações entre os polos geodésicos descobertos por acaso por um engenheiro mecatrônico amador de Nova Palestina. A Secretaria para o Desenvolvimento do Pensamento Dogmático oficializou uma nova acepção para a palavra anátema. Dizem que essa mudança de perspectiva está causando revolta entre os linguistas, confusos quanto às novas normas desestruturantes impostas ao léxico. Os estatísticos desenvolvem, no momento, um novo algoritmo capaz de deslindar os paroxismos fonéticos e semânticos gerados em consequência de medidas judiciais heterodoxas no campo da persuasão. As latrinas vermelhas e douradas ocupam uma posição de destaque no castelo de cartas marcadas pela gordura de homens infectos por pensamentos de violência e boçalidade. As freiras estão brincando, vejo pela janela, não com tanta nitidez, mas me parecem jogos sexuais sádicos engendrados como se fossem aquelas partidas de xadrez para três participantes. A aporia se transforma em uma indagação e verte a preocupação para aquele aplicativo de transcendência proibido por burocratas banais e solitários. Todavia, algo vetorial conduz meu pensamento para o líquido que começa a deslizar daquela foto irônica da Miranda July estampada na parede. Quem colocou esse pôster aí? O material, bastante viscoso, percorre a parede com cadência moderada, desafiando as imposições da gravidade nervosa que usualmente percebo nos momentos de reflexão. Aquilo está saindo das orelhas dela em frenesi. Por um segundo, fico preocupado com a limpeza do chão, e quando me dou conta estou lambendo aquela baba estranha derramada por cima do calçado birkenstock que meu último flerte deve ter esquecido em um dia de neve e calor. Em um átimo de receio, todavia, aquela situação torna-se refratária ao ponto de se tornar abjeta. A Miranda, por sua vez, esguicha cada vez mais aquele choro por suas orelhas cubistas. O ímpeto me joga com furor a uma tentativa certamente frustrada de arrancar o pôster de sua geografia original. Meus dedos, contudo, afundam na parede e trazem consigo um concreto elétrico que desperta pequenos choques na ponta de minha terceira língua. Sofia, você está rosa. Volta aqui. Fala comigo. Eles estão nos testando. Três bonecos de playmobil que eu lembrava ter doado para a instituição de caridade onde trabalhara a ex-namorada da minha prima que se casou com o bispo do rosário de Córdoba começam a cantar em coro a discografia completa do Rufus Wainwright enquanto simulam uma felação consensual com uma pétala de carvão. A dissociação das figuras de linguagem foi a primeira evidência notada pelos sensores de percepção instalados no Panóptico 27c. A dúvida sobre a especificidade desta informação habitar minha mente leva Miranda ao riso compulsivo. Este ambiente opressor acentua a minha dúvida sensorial sobre a validade ontológica de minhas vãs suposições quanto ao bom gosto da Miranda. Empreendendo um esforço descomunal, tento assoviar descontração para dali instantes driblar os bonecos satíricos de playmobil e alcançar aquela maçaneta da porta sobre ao qual já discorri em um ensaio disfarçado de nave especial. Ao sair do quarto, deparo-me com uma bifurcação. Entretanto, casas nunca tiveram bifurcações, pensou alguém. Busco meu raciocínio e não encontro de volta, ao passo que a distração me faz tropeçar no suco de limão que minha irmãzinha de oito anos deixou esparramado na sala. A Miranda grita do quarto que em suco se escorrega, e não se tropeça, mas minha boca quebra e não consigo me vingar da insolência dela com palavras ofensivas. Aliás, eu não tenho uma irmãzinha de oito anos, isso está me soando muito estranho, diz o sujeito no parque enquanto eu conto a história de quando eu tentei explicar a um colega arquiteto que o termo tecnologia biológica seria a perfeita expressão para ilustrar o nível de sofisticação das sociedades indígenas pré-colombianas, cujos feitos sobrepujavam-se com elegância às pirâmides cartesianas avant la lettre. Começa a chover muito. Uma jaguatirica vestida de jaleco de seda cava um buraco na grama escassa, não sem antes me dizer adeus e pedir para que eu cuide da Sofia com carinho. Tudo isso eu pensei enquanto caia dentro da poça de suco de limão e me preocupava com os pré-sofistas enganados com o dolo sobre a repulsão entre partículas subatômicas. Sinto minha cabeça como um cubo onde quatro pessoas riem sem motivos de poemas de escárnio e maldizer. A despersonificação é o sintoma; e a aporia, o método, diz o alto-falante da direita. Engenharia de versos, matemática de palavras, recita o garotinho atrás da porta do apartamento. Corro para encontrá-lo, atravesso o portal com um pulo, desço as escadas nadando, persigo o maroto sob olhares complacentes dos transeuntes consumidores de carne sem proteína e vegetais sem fibra do supermercado onde foi parar o nosso devaneio. Afasia, achocolatado transgênico, cenoura hidropônica e vinho galvanizado são as novidades da prateleira central. Um viciado em metacrack invade o recinto e furta quatro garrafas de água desidratada à medida que o querubim mascote toca Gonzaguinha na sanfona caipira. A Sofia se despede de todos e desaparece novamente.

Marcio Aquiles é escritor, crítico de teatro, mestre e bacharel em estudos literários (Unicamp), autor dos livros “Tipologias Ficcionais e Linguísticas”, “Monólogos de um Reacionário”, “O Esteticismo Niilista do Número Imaginário” e “Delírios Metapoéticos Neodadaístas”.

 

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