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O Monstro Vai Te Pegar

Saiba quem é – e o que pretende – o novo gestor do espaço que está reorganizando a agenda dos paulistanos com o Festival Teatro Vivo. Sua missão será transformar o local em um efervescente centro multicultural. Com vocês, André Acioli...

POR Melissa Lenz 5 MIN

16 jul

5 Min

O Monstro Vai Te Pegar

POR Melissa Lenz

	

Se você der um Google somente no nome dele, vai ficar meio no vácuo. Mas se acrescentar os teatros Eva Hertz, Porto Seguro ou Vivo, prepare-se que vão chover referências sobre o ator, diretor e produtor paulistano André Acioli, 41.
Novo curador artístico da área de patrocínios da Vivo e gestor do Teatro Vivo, André tem formação de ator e já dirigiu vários espetáculos. No mais recente, o show Adonirando – Homenagem ao Adoniran Barbosa (2018), celebrou um dos ícones da cultura paulista. Somado a isso, ele gerencia o Teatro Porto Seguro e responde pela curadoria e administração do Teatro Eva Hertz, em São Paulo.
Em entrevista realizada no Teatro Vivo, André conta que, embora sejam espaços distintos, as histórias se entrelaçam. “É engraçada a sincronicidade das coisas, parece destino. Minha primeira peça, Visitando o Sr. Green (2004), aconteceu aqui e eu era da produção, contrarregra”, conta. “Foi quando conheci o Dan Stulbach, que me disse que, quando montasse um teatro, eu estaria com ele… Lá por maio de 2007, recebi um e-mail: ‘Chegou a hora, vamos trabalhar juntos!’” André faria a gestão do Eva Hertz e Dan Stulbach, a direção artística: “Ali começava meu trabalho desse outro lado, o de cá do balcão”.

O melhor dos mundos
Em 2015, Dan abandonou a função e passou totalmente o bastão ao parceiro. Em paralelo, André assumiu também a gerência do Teatro Porto Seguro, que estreou em maio daquele ano sob a curadoria artística de Marco Griesi. Em maio de 2017, ele iniciou uma conversa com a Vivo, que procurava um parceiro para ajudar na missão de transformar seu teatro em um efervescente centro cultural em São Paulo. O plano da empresa era de que o espaço recebesse sessões de cinema, exposições e debates com artistas em cartaz. Por isso, passou por uma reforma ainda naquele ano, que envolveu iluminação, sonorização e construção de um novo café. Após 13 anos com o mesmo time à frente do teatro, e empresa optou por iniciar o processo de desenvolvimento em 2017. Em outubro, anunciou André Acioli como novo gestor do Teatro Vivo e curador da sua área de patrocínios. “Parte importante dessa evolução passa pela escolha de um novo curador artístico”, diz Christian Gebara, vice-presidente (COO) da Vivo.

Festival Teatro Vivo
O passo inicial para concretizar essa ambição de modernizar o espaço, localizado na região do Morumbi, é a realização da primeira edição do Festival Teatro Vivo. Lançada no dia 1º de junho, a maratona cultural seguirá até 1o de agosto e somará 41 apresentações de oito espetáculos já consagrados pelo público, como Os Guardas de Taj, com Reynaldo Gianecchini e Ricardo Tozzi; Boca de Ouro, com Malvino Salvador e Mel Lisboa; Contrações, com Débora Falabella e Yara de Novaes; e também o inédito O Monstro, monólogo de estreia interpretado por Genézio de Barros.
“Acreditamos que as artes cênicas são uma importante forma de conexão, por isso queremos que o Teatro Vivo traduza nosso posicionamento de marca, ‘Viva menos do mesmo’, incentivando as pessoas a viverem diferentes experiências e a se abrirem a novas descobertas. Queremos continuar valorizando atores e diretores já consagrados no mercado e, ao mesmo tempo, abrir espaço para uma nova geração de artistas”, comenta Christian Gebara. O curador endossa: “Estou em sintonia com esse desejo da Vivo de ampliar, diversificar ainda mais o patrocínio de diferentes espetáculos. Acontece muito no nosso meio, adotar um único foco ou investir em determinado tipo de teatro: monólogo, comédia etc… Eu, André, penso que devemos valorizar a pluralidade e pensar no que o público está precisando, no que é relevante ser abordado.”
Confira mais de nosso bate-papo, no palco do Teatro Vivo – com a plateia ainda vazia:

Qual sua ambição com o Festival Teatro Vivo?
O Festival contempla vários fatores: ampliar a quantidade de espetáculos patrocinados pela Vivo, atrair mais diversidade de público e fomentar a história teatral e do próprio Teatro Vivo, porque de certa forma muitas pessoas não o conhecem e queremos fazer dele um complexo cultural. Tudo isso vem da inquietação de fazer mais, de estar junto com a classe artística. Nossa ideia é que o festival seja anual. Ainda não definimos um período fixo, mas não vamos parar nesse primeiro, isso é um fato.

Como está sendo esse desafio de levar mais gente a um teatro afastado do centro?
Nós viemos dessa tradição de sempre pegar os horários mais tarde por causa do trânsito. Então por que não fazer o contrário? Abrir sessões mais cedo (20h) para pegar as pessoas que trabalham na região e assim conseguem aproveitar um bom espetáculo sem chegar tão tarde em casa? Outra medida foi vender todos os ingressos a preços populares (R$ 50 a R$ 60, com opção de quatro espetáculos por R$ 90 e oito por R$ 170). A gente sempre fala “mas é longe”… Para quem? Em São Paulo, hoje nada é distante, basta se organizar.

Quais os próximos movimentos para o segundo semestre?
Atendendo a muitos pedidos, de agosto a setembro voltaremos com o espetáculo Love Love Love (com Débora Falabella), que foi um sucesso! Também teremos uma gama de espetáculos patrocinados pela Vivo viajando o Brasil inteiro. E até 14 de julho estamos recebendo inscrições (pelo e-mail: [email protected]) dos novos projetos a serem patrocinados no primeiro semestre de 2019. Não se faz nada sozinho, a ideia é que todos embarquem nessa onda. Também temos um desejo gigante de reformar esse espaço para torná-lo muito mais multicultural. Cogitamos estrategicamente fechar no final do ano, durante as férias, para voltar com tudo em 2019. O ambiente terá a mesma capacidade (274 lugares), só que com muito mais modernidade e tecnologia para receber futuras produções. Nova roupagem, paredes e poltronas… Uma experiência única para o cliente que vem para cá.

Qual sua maior ambição como curador artístico nesse projeto?
Se conseguirmos atingir o que estamos trilhando, que é colocar a Vivo como parceira da classe artística, para mim será incrível. Falo como artista mesmo, porque realmente sei o quanto é difícil ter empresas que encarem as produções artísticas e o teatro como um modo de investir na cultura. E neste momento a Vivo está totalmente empenhada nisso. Além do próprio Festival, teremos vários espetáculos circulando pelo Brasil. E essa premissa do Christian Gebara de mostrar ao público novas experiências e fugir da mesmice é demais. De certa forma, o mercado é muito cruel nesse sentido. Tudo é amarelo? Tudo é amarelo. Tudo é verde? Tudo é verde. Às vezes, a gente está nessa onda e nem percebe. Ser provocado a pensar ao contrário é, no mínimo, instigante.

Você falou sobre tentar levar ao público o que a sociedade precisa ver. Gostaria que falasse sobre a escolha dessas peças.
São temas muito distintos, mas com um aspecto em comum: tratam da essência humana, da confiança e do amor ao próximo. Mesmo a peça mais leve, que é Amigas Pero No Mucho, aborda a confiança entre mulheres amigas, do quanto uma pode confiar na outra, de como o que se fala é levado a sério, às vezes mais do que se deveria. Vivenciamos um momento em que estamos perdendo a confiança no próximo. Essa loucura da vida que levamos nos faz ficar um pouco reclusos e não confiar muito nas pessoas. Eu acredito no ser humano, acho que precisamos uns dos outros.
É isso que quero instigar no público – que se perceba, por meio dos espetáculos, como parte de uma espécie na qual vale a pena acreditar. Um dos aspectos mais bacanas é que conseguimos trazer diversas reflexões:  Uma peça fala mais para o humano, outra para a família, amizade, mas, de certa forma, todas seguem uma mesma unidade.

De onde vem O Monstro, único espetáculo que fica em cartaz até o final do Festival?
Vem justamente dessa inquietação que está acontecendo na sociedade hoje em dia. Aborda o dilema das pessoas que se questionam se são felizes com o que têm, tratando de temas que extrapolam o conceito de ética, de poder. E é muito pertinente falar do assunto numa época em que você escuta alguém achar um absurdo uma mulher declarar que foi assediada. Quem sou eu para julgar se ela considera ou não afronta ter sido assediada? São temas que precisamos tratar mais do que nunca. Ou corremos o risco de classificar tudo como banalidade, melindre, firula… Por isso, O Monstro.

 Serviço:
Festival Teatro Vivo
De 1o de junho a 1o de agosto de 2018.
Av. Dr. Chucri Zaidan, 2.460.
Morumbi – São Paulo, SP.
Bilheteria: (11) 3279-1520.
teatrovivo.com.br

Fotos: Sabrina Lautenschleguer  

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