TOP Magazine

100 quilos de estrelas

Produção francesa coloca obesidade, bulimia, transtorno obsessivo-compulsivo e paraplegia no centro de narrativa sobre dilemas da adolescência e pressão social

POR Walter de Sousa 4 MIN

21 fev

4 Min

100 quilos de estrelas

POR Walter de Sousa

	

 

Há dilemas distintos que afetam qualquer adolescente de outros, afetados por distúrbio específicos, como a bulimia, o transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), a paraplegia e a obesidade? Sem entrar na questão da desigualdade social, é possível notar que a adolescência é uma busca não somente por enquadramento e reconhecimento social, mas por subjetivar a realidade a partir de representações significativas. No primeiro filme da diretora francesa Marie-Sophie Chambon a adolescente Lois (Laura Duchêne) quer ser astronauta. Para isso tem um desempenho escolar excepcional, mas seus professores se revelam despreparados ao tentarem dissuadi-la da ideia. Nisso, contam que não é possível um astronauta ter 100 quilos. O comentário, aliás, a leva à decisão radical – e comum às adolescentes com o mesmo problema – de deixar de comer. A reação dos pais é proporcional em radicalidade: a internam numa clínica especializada em distúrbios psicológicos de jovens.

 

Lá, sua contraparte logo se revela em Amélie (Angéle Metzger), que também deixou de comer, mas pelo motivo oposto: para não engordar. A ela conta que precisa estar no Centro Espacial de Toulouse, onde acontecerá uma feira de ciência que dará como prêmio a experiência de flutuar numa câmera de gravidade zero. A oportunidade de fugir e seguir de alguma maneira até o local não demora a acontecer e leva, com a dupla, outras duas meninas: a paraplégica Stannah (Pauline Serieys) e Justine (Zoé de Tarlè), que sofre de TOC e tenta escapar ao excesso de ondas que preenche o vazio do mundo, abrindo mão de televisores e celulares (um personagem, aliás, que merecia uma história própria). A sequência pós-fuga faz lembrar outros filmes adolescentes, incluindo o nacional Colegas (ganhador de melhor filme no Festival de Gramado de 2013), dirigido por Marcelo Galvão, sobre três adolescentes com Síndrome de Down que fogem da clínica onde vivem. As representações significativas: Lois se sente Júpiter, o planeta gigante que comporta, em sua massa, 1.321 vezes a Terra; a busca pela libertação do peso numa câmera sem gravidade; e, por fim, a solução que as quatro encontram para mergulhar, com suas deficiências, na experiência como elemento de sublimação, o que acontece no final. Não é somente um filme fofo sobre adolescentes com problemas. É um filme que faz transparecer a loucura social em que nos metemos nessa altura da História. Que os jovens consigam, de fato, sublimar esses tempos confusos.

100 quilos de estrelas
Direção: Marie-Sophie Chambon
Elenco: Laure Duchêne, Angèle Metzger, Pauline Serieys, Zoé de Tarlé, Isabelle
de Hertogh, Philippe Rebbot.
Estreia: 20/02

  • COMPARTILHE
VOLTAR AO TOPO